0# CAPA 26.8.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
edio 2440 - ano 48  n 34
26 de agosto de 2015

[descrio da imagem: fundo da capa em cor escura, predominando preto, sendo que no centro aparece, como uma sombra, a figura clssica, segurando a balana,  que representa a justia. Bem abaixo da balana, em tamanho pequeno, aparece a foto de Eduardo Cunha e Fernando Collor, em p, de terno, com expresso sria.]
IGUAIS PERANTE A LEI
no brasil de hoje ningum  melhor diante da justia. Essa  uma etapa civilizatria
comum a todas as grandes naes que j conquistaram a riqueza e a paz social.

[outros ttulos: parte superior da capa]
SEXO
As promessas do primeiro remdio para aumentar o desejo feminino.

3 GRAMAS
O STF decide se portar o equivalente a dois cigarros de maconha  legal


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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 26.8.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO EITOR  A VANGUARDA ILUMINISTA
     1#3 ENTREVISTA  ALAN LEVINOVITZ  O ORGNICO NOSSO DE CADA DIA
     1#4 CLAUDIO DE MOURA CASTRO  BIBLIOTECAS: METAMORFOSE OU MORTE?
     1#5 LEITOR

1#1 VEJA.COM

TXICO OU ESTIMULANTE?
Gigante do e-commerce mundial, a Amazon foi tema de uma extensa reportagem do jornal americano The New York Times, que apresentou o seu ambiente de trabalho como txico. Segundo entrevistados, a cultura da empresa, guiada por metas e mtricas, teria se tornado abrasiva e impiedosa. O fundador Jeff Bezos saiu em defesa da Amazon, e teve apoio. Empregados descreveram os escritrios em Seattle como desafiadores na medida necessria para fomentar a inovao. A Amazon no  um caso nico. Outras empresas de tecnologia e bancos de investimento so conhecidos como "panelas de presso". Reportagem do site de VEJA discute os limites entre um modelo de gesto que busca a excelncia e aquele que dissemina o medo. 

OS PSICOPATAS DO COTIDIANO
O chefe que desqualifica publicamente o funcionrio e o vizinho que sempre busca motivos para uma contenda no condomnio. Eles tm algo em comum? De acordo com a psiquiatra carioca Katia Mecler, de 50 anos, sim. E muito. Em Psicopatas do Cotidiano, livro que ser lanado nesta semana, Katia descreve os perfis de gente que no comete crimes mas submete quem est ao seu redor ao sofrimento. "Em maior ou menor grau, eles deixam marcas em nossa vida", diz ao site de VEJA. 

O ERRO DA GUERRA
Os Estados Unidos falharam no Iraque e abriram brechas para o crescimento de organizaes extremistas como o Estado Islmico (EI), diz em entrevista exclusiva ao site de VEJA Michael Weiss, autor de um dos mais completos livros sobre o grupo jihadista - Estado Islmico: Desvendando o Exrcito do Terror. Weiss afirma que o sistema prisional americano no Iraque foi um dos grandes responsveis pela radicalizao dos terroristas. "Se observarmos a liderana do EI hoje, constataremos que todos ficaram presos no Iraque. Isso no  coincidncia." 

O ALVORECER DOS ZUMBIS
A srie The Walking Dead caminha para a sexta temporada, em outubro, com enorme sucesso. Agora, os fs vo ter a chance de ver o apocalipse zumbi de outro ngulo em Fear the Walking Dead, que estreia no Brasil e nos Estados Unidos no domingo 23, s 22 horas, no canal pago AMC. The Walking Dead comea quando os mortos-vivos j dominaram a Terra. Fear the Walking Dead vai mostrar o incio da epidemia que transformou a maior parte da populao mundial em mortos-vivos. O produtor David Alpert falou ao site de VEJA direto de Los Angeles. 


1#2 CARTA AO EITOR  A VANGUARDA ILUMINISTA
     Em uma palestra no Instituto FHC, em So Paulo, na segunda-feira passada, o ministro Lus Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), mexeu com a audincia quando disse que muitas vezes o papel da mais alta corte do pas  servir de "vanguarda iluminista" para a sociedade. Ele respondeu s crticas de que isso era um exagero, reconhecendo que talvez a expresso "vanguarda iluminista" pudesse soar um pouco arrogante, mas manteve-se firme na ideia central de que em muitos momentos da histria brasileira, em particular no atual, a Justia tem sido, se no uma ilha, pelo menos um farol de racionalidade quando tudo parece estar de pernas para o ar na poltica e na economia. Uma reportagem desta edio de VEJA dedica-se a tentar entender o alcance histrico desse protagonismo da Justia cuja face mais visvel  a atuao do juiz Srgio Moro  frente da Operao Lava-Jato. 
     A concluso da revista coincide com a do ministro Barroso. VEJA avalia que o fim da sensao de impunidade que a Operao Lava-Jato transmite  equivalente a outros grandes momentos de mudana definitiva de curso, para melhor, que o Brasil experimentou recentemente  primeiro, a vitria no governo Fernando Henrique Cardoso contra o reino  do caos econmico encarnado pela inflao; depois, o reconhecimento de que nenhum pas pode almejar a grandeza enquanto parte de sua populao vive na misria, o grande legado de Lula. A derrota da impunidade junta-se, ento,  conquista da racionalidade econmica e  inadmissibilidade da misria como o que faltava para o Brasil estar de posse de todos os ingredientes com os quais foram construdas as grandes naes democrticas, justas e prsperas do planeta. 
     O decano dos ministros do STF, Celso de Mello, definiu os agentes do escndalo do mensalo, ao sentenci-los  priso em 2012, como "os subversivos da ordem institucional, (...) delinquentes e marginais da tica do poder". Comeava ali a se manifestar a "vanguarda iluminista" do Judicirio brasileiro, evento auspicioso que o mesmo Celso de Mello d pistas de que v ocorrer de novo ao descrever assim o atual escndalo do petrolo: "Um mtodo de ao governamental e de conduta administrativa, degradando, em consequncia de atos to ignbeis, a prpria dignidade da poltica, fazendo-a descer ao plano subalterno da delinquncia institucional". So dois diagnsticos pautados pela justa indignao do magistrado. O primeiro resultou em punies exemplares. O segundo antecipa o mesmo e adequado desfecho. 


1#3 ENTREVISTA  ALAN LEVINOVITZ  O ORGNICO NOSSO DE CADA DIA
O filsofo americano traa paralelos entre as religies e os modismos alimentares, como o vegetarianismo, e alerta para o fato de que os seres humanos no so o que comem.
NATHALIA WATKINS

Professor de religio e filosofia na Universidade James Madison, em Harrisonburg, Virgnia, o americano Alan Levinovitz identificou um componente de f nos modismos alimentares, como o vegetarianismo, o crudivorismo e outras dietas restritivas. Por dois anos, ele revisou centenas de pesquisas cientficas e entrevistou mdicos e cientistas. O resultado est no livro A Mentira do Glten, com lanamento previsto para setembro no Brasil. Levinovitz concluiu que, da mesma forma que os dogmas religiosos, o radicalismo nos hbitos alimentares se utiliza de padres de comportamento para dar s pessoas a segurana de se sentir parte de um grupo e de estar fazendo algo que as tornar seres humanos melhores. Ele falou a VEJA por telefone. 

O ser humano  o que come? 
Em muitas culturas ancestrais, acreditou-se que coisas ou fenmenos parecidos teriam efeitos parecidos. Por exemplo, se um grupo de pessoas queria que chovesse, derramava um copo de gua no cho. A gua despejada, acreditava-se, poderia interferir no clima. Essa lgica se transferiu para o mundo da alimentao. Criou-se a crena de que a ingesto de gordura deixa a pessoa gorda. Isso faz sentido na teoria, mas no  verdade. A cincia j superou a mxima "voc  o que voc come", porm ainda existe a necessidade humana de encontrar paralelos mgicos entre fenmenos distintos. Essa  uma soluo fcil, que simplifica as escolhas alimentares. O problema  a perpetuao da ideia de que algum pode ser melhor ou pior dependendo do que come. Por essa lgica, se algum ingere algo considerado "puro" e "limpo", tambm se tornar "puro" e "limpo". Infelizmente, isso  acreditar em mgica. Os seres humanos querem regras simples para a vida e para dar um significado  prpria existncia. Por outro lado, h os que se sentem culpados por no comer bem. Isso  ridculo. Relaxar  to importante quanto comer bem. 

Por que o sentimento de culpa  pior do que alimentar-se mal? 
Um estudo comparativo feito no Japo, na Frana e nos Estados Unidos mostrou que os americanos so os que se sentem mais culpados pelo que escolhem como alimentos e so os mais conscientes no que diz respeito  nutrio. Ao mesmo tempo, so os que mais sofrem com obesidade e so menos saudveis. 

O glten  o vilo da vez da alimentao. Isso tem embasamento cientfico? 
H pessoas que realmente precisam cortar o glten da dieta. So os celacos. A estimativa  que eles representem cerca de 1% da populao. Alm deles, uma parcela que no  celaca pode desenvolver reaes ao glten. Esse grupo representa entre 3% e 5% do total. Para todo o resto, no h nenhuma necessidade de evitar a ingesto dessa substncia. Contudo, um tero dos americanos consome produtos sem glten. A constatao  que dezenas de milhes de pessoas, para ficar s com as estatsticas americanas, esto cometendo um erro ao decidir o que devem ou no ingerir. Em vez de usarem informaes com base cientfica ao tomar suas decises  mesa, agem como fiis religiosos. 

As religies tambm ajudam a estabelecer crenas alimentares? 
Existe algo de divino na comida, que vem de muito tempo atrs. A histria religiosa mais famosa do Ocidente, a de Ado e Eva,  um exemplo disso. A narrativa conta que eles eram pessoas boas e inocentes que viviam no paraso at que uma serpente disse a Eva: "Coma essa fruta que voc no deveria comer". Depois, os dois tornaram-se mortais, experimentaram a dor, o sofrimento e passaram a ter de cultivar a terra. A lio  que comer algo indevido pode ser ruim e causar dor fsica.  

No passado, regras alimentares religiosas, como halal e kasher, no teriam sido teis como polticas de sade pblica, ao evitarem doenas? 
Sempre achei que judeus no podiam comer carne de porco e crustceos porque so alimentos que se deterioram facilmente. O objetivo seria manter o povo saudvel. Mas pesquisas mais recentes indicam que a razo no  essa. O Levtico prescreve que no se podem comer anfbios ou sapos. Mas o critrio nada tinha a ver com a sade. Os textos religiosos exigem que os animais sejam classificados. O animal voa ou anda? Ele nada? Ento, o critrio para declarar impura a carne de um bicho derivou da impossibilidade de classific-lo. Ao seguirem certas normas, os grupos humanos se diferenciaram uns dos outros. As normas alimentares tiveram o mesmo papel, estabelecendo uma identidade de grupo. Esse comportamento prevalece at hoje. Existe o grupo de pessoas que no comem fast-food ou o grupo dos que evitam o consumo de acar. Essas escolhas so fatores definidores da identidade de cada um. 

Mas acar em excesso faz mal, no? 
Sim, e a principal razo disso  que essa substncia  uma fonte barata e saborosa de calorias nutricionalmente vazias. Muito do excesso de calorias consumido no mundo inteiro vem de bebidas adoadas e de outros alimentos aucarados.  um problema srio, mas no h nenhuma razo comprovada pela cincia para que se elimine completamente o acar da dieta. 

A forma com que um alimento  produzido tambm ganhou contornos religiosos? 
O mito de que se algo  feito de uma maneira imoral deve ter consequncias ruins para o corpo  muito forte. Os argumentos usados por vegetarianos vo nessa linha. Alguns eliminam carnes de sua dieta porque se dizem contra a violncia e o abate de animais. Mas o fato de os animais serem mortos para se tornarem alimento no quer dizer que eles faro mal ao organismo. Maldade moral no se converte em prejuzo  sade. 

O Instituto Nacional do Cncer do Brasil diz que "modos de cultivo livres do uso de agrotxicos produzem frutas, legumes, verduras e leguminosas, como os feijes, com maior potencial anticancergeno". O que o senhor acha disso? 
Isso  ridculo, francamente. O tabaco definitivamente causa cncer. Salvamos muitas vidas informando sobre os danos provocados pelo cigarro. O mesmo vale para o lcool. Beber em quantidades elevadas pode provocar malefcios. Mas  difcil encontrar evidncias cientficas consistentes de propriedades anticancergenas em alimentos orgnicos ou mesmo em frutas e vegetais especficos. Quando os cientistas encontram esses benefcios, como no caso dos brcolis, o efeito  apenas marginal. A separao entre alimentos "orgnicos" e "no orgnicos" no  uma distino cientfica. Essa palavra, assim como o termo "natural, no existe na cincia. Se alimentos so cozidos e levados  mesa, eles no so naturais? Com os orgnicos,  a mesma coisa. Dizer que alimentos orgnicos ajudam a prevenir cncer  um mantra religioso. Essa afirmao remonta  ideia de que, em um passado distante, quando tudo era natural, todo mundo era mais saudvel. Mas isso no  verdade. No sabia da existncia dessa orientao no Brasil, e estou chocado... 

Por que a adaptao da comida  vida moderna  vista como algo ruim? 
Ao fazermos esta entrevista, estamos realizando algo incrvel. Eu estou na minha casa, em uma sala com ar condicionado, falando com voc ao telefone, apesar de estarmos em continentes diferentes.  timo, certo? Embora tal situao no seja uma coisa natural, no nos sentimos em perigo por isso. Por que, quando se trata de comida, a tendncia das pessoas  achar que h algo negativo na modernidade? Com moderao, d para se servir de tudo. Para aproveitar a vida, o importante  ser flexvel e no ficar o tempo todo impondo regras a si prprio. Conheo gente que deixa de ir a reunies familiares por no saber a origem do que ser servido. Ou deixa de mandar o filho a festas infantis por medo do acar colorido artificialmente. Viver com medo de ser impuro  viver com medo de estar doente. Isso  estressante, e pode levar a distrbios alimentares. No podemos viver como monges modernos. Comer no  somente um hbito para ser saudvel e manter o peso.  tambm divertir-se com amigos, desfrutar cultura e histria. No podemos transformar os alimentos em remdios. 

H relao entre proselitismo religioso e proselitismo alimentar? 
Certamente. Pessoas que realmente so sensveis ao glten no tentam convencer as demais a abandonar o glten. Para elas, cortar o glten  uma necessidade mdica. Quem faz proselitismo, seja da dieta paleoltica, seja da vegetariana ou de outros modismos, acha que vive de uma maneira superior e, por isso, quer atrair o maior nmero de adeptos para sua religio. Fazer proselitismo de comida e de exerccios fsicos  um modo de definir a prpria identidade como superior  dos outros. 

As duas formas de proselitismo so igualmente ruins? 
Se uma pessoa acredita que sua f faz bem e proporciona uma vida melhor,  positivo convencer os outros a se juntarem a ela. Mas  triste ver o mesmo entusiasmo religioso aplicado  comida e aos exerccios. Os seres humanos amam dominar os outros, dizer o que devem fazer. Os governos, particularmente, adoram fazer isso. 

Assim como na religio, h entre as dietas uma competio para ser a mais pura e radical? 
Sim, essa  a regra. Nos Estados Unidos, a dieta paleoltica  muito popular. Nela, tenta-se imitar a alimentao dos nossos ancestrais. Isso nada mais  que uma verso da busca pelo paraso perdido. Mas h muitas variaes dessa dieta e h diferentes grupos que divergem sobre como pratic-la. Alguns dizem que no  permitido nem comer tomates porque so ervas-mouras e no existiam antigamente. Outros pregam que, para ser paleoltico de verdade, no se podem fazer exerccios em uma academia.  preciso faz-los ao ar livre. Por isso, muitos so adeptos do crossfit, que se tornou muito popular. Contudo, assim como na religio, no se pode ser muito fundamentalista, ou no haver novos adeptos. Os que s comem alimentos crus ou plantas que s existiam h 10.000 anos vo se dar conta uma hora de que, se quiserem que faamos parte do grupo deles, ser preciso afrouxar as regras. As religies tambm tendem a ser muito puras no incio, e depois ficam mais flexveis. 

Que influncia as celebridades exercem sobre os hbitos alimentares das pessoas? 
Em uma era em que as mdias digitais se tornaram muito populares e acessveis, as estrelas de cinema e os atletas assumiram o papel dos santos do passado. Em vez de olharem para os textos religiosos, os indivduos leem o que as celebridades dizem porque querem algum para gui-los. Eles tambm acreditam que, se fizerem o mesmo que os famosos, tero um resultado igual ao deles. Santidade, atualmente,  um conceito distorcido. 

Por que as religies alimentares quase sempre apontam o capitalismo como o maior dos males? 
Movimentos religiosos originam-se muitas vezes do sentimento de perda de poder e do desejo de culpar algum. A verdade  que humanos morrem, ficam doentes.  muito frustrante. Ento, procuramos culpados, e geralmente fazemos isso apontando o dedo para quem tem poder. Atualmente, a maior fonte de poder so os governos democrticos e a indstria capitalista, mas so eles, sem sombra de dvida, os responsveis pela melhora na nossa qualidade de vida. Podemos ir a um supermercado e encontrar frutas de qualquer parte do mundo. Apesar disso,  fcil acreditar que no passado, sim, era tudo um paraso. Ento, para muitos, o capitalismo e a democracia representam a modernidade que nos afasta do mito do paraso. 

A indstria alimentcia est em perigo? 
Claro que no. Os empresrios esto muito felizes em vender bebidas sem adio de acar e alimentos sem sal. No mundo dos alimentos, os donos das empresas que vendem alimentos orgnicos so os mesmos das que vendem os no orgnicos. Eles simplesmente no ligam para isso. 


1#4 CLAUDIO DE MOURA CASTRO  BIBLIOTECAS: METAMORFOSE OU MORTE?
     Quando buscvamos um livro, a soluo era bvia: bastava ir  biblioteca. Mas rondam tempestades ameaando essa veneranda instituio. Em poucos anos, cabero em um notebook todos os livros produzidos na histria da humanidade (as estimativas flutuam entre 42 milhes e 130 milhes). Um pouco adiante, e enfia-se tudo em um celular. 
     Para que biblioteca? Peridicos cientficos e muitas outras publicaes migram para a sua verso digital, o mesmo acontecendo com os jornais. Diante do www,  risvel o tamanho das bibliotecas em papel. A Wikipedia esmaga a mais ambiciosa enciclopdia tradicional. E para que bibliotecria se o "Santo Google" acha tudo rapidinho? 
     Por 10 dlares ou pouco mais, a verso digital de praticamente todos os livros em ingls pode ser comprada na Amazon. Um minuto depois de um s clique, o livro est em nosso poder.  inevitvel que o Brasil v pelo mesmo caminho  apesar do atraso presente. E no h como impedir a digitalizao pirata de livros populares.  
     Diante disso tudo, o que ser das bibliotecas? So caras, e seu acervo no Brasil  pfio. Pior, falta-nos o hbito de frequent-las. Portanto, se definharem, sua falta no ser notada. 
     Mark Twain afirmou que as notcias de sua prpria morte haviam sido exageradas. O mesmo se pode dizer das bibliotecas. De fato, elas podem ter assegurado o seu lugar no futuro, desde que se transformem. Biblioteca careta e chata no sobreviver. Como depsito de livros, est condenada. 
      sintomtico que algumas bibliotecas americanas tenham levado seus livros para trapiches, pois havia muitos usos mais nobres para o espao. Eis a pista para a salvao: a biblioteca do futuro ser um canivete suo, far tudo.  
     Se bem concebida, ela ser um lugar aonde vamos sem pensar muito no que faremos l. Vamos porque nos atrai, porque  bom estar nela. Para incio de conversa, precisa ser supremamente formosa, confortvel e atraente. A arquitetura externa tem de dar vontade de entrar. A interna, de ficar. 
     Seu ambiente trar o visgo intelectual da gora grega, das livrarias da Rua do Ouvidor nos tempos de Machado de Assis, dos cafs da Rive Gauche, das Starbucks e dos restaurantes chineses do Vale do Silcio. Haver abundncia de jornais, revistas e livros de interesse geral. E, cada vez mais, vdeos. Livros desinteressantes, porm, doados por alguma viva (trs quartos dos nossos acervos so dessa origem), no trazem ningum s bibliotecas. 
     De depsito de livros, passam a oferecer quase tudo. Alguns espaos so silenciosos, para ler. Em outros, conversamos ou nos reunimos (com projetor de PowerPoint). Algumas poucas esto voltadas para a pesquisa, uma funo essencial e cara. Mas, se a Amazon consegue entregar no dia seguinte os livros comprados, as bibliotecas tambm podero. Ttulos pouco procurados no precisam de mais do que um exemplar, talvez no pas inteiro. Basta um sistema para tomar emprestado, rapidamente, do acervo de outras bibliotecas. 
     Na nova biblioteca, salas e auditrios promovem conferncias, concertos e exposies. Por que no jardins lindos, para os criativos peripatticos? Ou espaos para meditar? No fundo, a biblioteca deve tornar-se um lugar de leitura, troca de ideias e interao criativa entre os frequentadores. Enfim, uma usina intelectual, contribuindo para o avano do pas. Naturalmente, quando bate a fome, l comemos. E, afinal, um lugar onde se l e se tomam livros emprestados, por que no os vende tambm? Assunto e clientela so os mesmos das livrarias. 
     A frmula salvadora j existe e  resumida pela celebrada arquiteta americana Maya Lin. Para ela, bibliotecas so os templos de hoje, espaos para reflexo, explorao intelectual e discusso de ideias. Mas engana-se quem pensa ser revolucionria tal viso. De fato, a primeira grande biblioteca que o mundo conheceu, a de Alexandria, tinha como ponto de partida uma arquitetura memorvel, e sua concepo antecipa essa linha. Alm dos livros, tinha jardins, exposies de arte, concertos e outras atividades culturais. No dizer de um contemporneo, "era um lugar para curar a alma". 
     Ou seja, eis a receita para salvar nossas bibliotecas. No  preciso inventar nada.

claudiodemouracastro@positivo.com.br 
CLUDIO DE MOURA CASTRO  economista


1#5 LEITOR
A REPBLICA DO PIXULECO
William Shakespeare legou  lngua inglesa centenas de vocbulos. O ex-tesoureiro do PT Joo Vaccari Neto no tem a mesma estatura de Shakespeare, mas no negou  cultura brasileira a sua contribuio: a palavra pixuleco, incorporada ao lxico. Agora  s esperar para saber que fillogo a incorporar ao seu dicionrio ("No pas do pixuleco...", 19 de agosto). 
FREDSON Lus DE PAIVA BRITO E LIMA 
So Jos de Ribamar, MA 

Sou alemo de nascimento e brasileiro de corao (naturalizado aos 18 anos). A indagao "Que pas  este?" normalmente serve para expressar o sentimento de revolta e indignao por tudo isso que ns, brasileiros, somos forados a passar h vrios anos  e essa indagao fica a pairar no ar sem resposta. Joo Vaccari Neto idealizou h pouco tempo, e a revista VEJA acaba de formatar, a resposta: este pas  a Repblica do pixuleco! Estamos em via de ser transformados de "brasileiros" em "pixulecanos"  ou, se preferirem, "pixulecos" , seguindo o mesmo destino do malfadado Fuleco dos dissabores de 2014. O pas do futebol "fulecou", e o pas do futuro est em processo de "pixulecao"! Se a Polcia Federal e o Ministrio Pblico Federal forem s ltimas consequncias com a Operao Lava-Jato e o trabalho do juiz Srgio Moro no sofrer dissoluo de continuidade, ainda poderemos alimentar esperanas de recuperar a Repblica Federativa do Brasil. Caso contrrio, seremos "pixulecados" sistematicamente  e eu no saberei como justificar e o que dizer aos meus netos "pixulecos"! 
JONNY KLEMPERER 
Petrpolis, RJ 

De pixuleco em pixuleco, a Polcia Federal vai mostrando aos incrdulos pagadores de impostos nas mos de quem foram parar os bilhes roubados dos cofres pblicos. 
ABEL PIRES RODRIGUES 
Rio de Janeiro, RJ 

Em pas de pixuleco, fome, falta de instruo, infraestrutura precria, impostos astronmicos e queda no crescimento so meros detalhes. 
SIDNEI JNIOR RAMOS 
Trs Lagoas, MS 

A corrupo, combinada com a impunidade,  a doena que consome o sonho de uma nao. Eu diria que o Brasil passa por um tratamento quimioterpico intensivo, e a nao clama por Justia e punio aos corruptos e corruptores. Sonhar  preciso. 
DANIEL FIGUEIREDO 
Presidente Jnio Quadros (BA), via tablet 

Pixuleco? Com esse linguajar, no mnimo parece que estamos vivendo um clima de bazfia, esbrnia e gandaia no Brasil. 
CARLOS R. CABRAL 
Rio de Janeiro, RJ 

LULA 
Arrecadar 27 milhes de reais ministrando palestras? O ex-presidente Lula deve ser realmente uma sumidade nesse assunto ("O negcio milionrio do ex-presidente", 19 de agosto). Mas tenho uma dvida: sero palestras ou pixulestras? 
RVIO TRPOLI 
Bauru, SP 

PROTESTOS NO BRASIL 
Diante do ronco das ruas, a presidente Dilma teria um gesto de grandeza se entrasse em rede oficial na TV e pedisse desculpas ao povo brasileiro pelos pecados cometidos durante o seu mandato ("De volta pra rua", 19 de agosto). 
MRIO NEGRO BORGONOVI 
Rio de Janeiro, RJ 

Um sinal de quanto constrangem o governo os massivos protestos ocorridos no Brasil est na importncia que os porta-vozes do Planalto emprestam  dimenso estritamente numrica do fenmeno, como se qualquer variao nesse parmetro refletisse necessariamente alguma mudana na avaliao que a sociedade faz da situao poltica e econmica em que se encontra. A verdade  que os sucessivos eventos de exploso ordeira e apartidria da indignao popular constituem um acontecimento no cenrio poltico nacional cujo significado as instncias dirigentes teimam em subestimar. 
FANUEL PAES BARRETO 
Recife, PE 

A REPBLICA DO PIXULECO 2 
Sobre a reportagem "No pas do pixuleco..." (19 de agosto), o Ministrio do Planejamento, Oramento e Gesto esclarece que o Acordo de Cooperao Tcnica n 01/2009, assinado com as entidades ABBC e Sinapp, tem por objeto o compartilhamento de um sistema de gesto de margens consignveis dos servidores pblicos federais e pensionistas.  incorreto afirmar que "a empresa Consist prestava servio de computao ao Ministrio do Planejamento". A empresa Consist presta servio s entidades ABBC e Sinapp e a seus associados. No h relao entre o Ministrio do Planejamento e a Consist. Alm disso, o acordo no prev repasse de recursos financeiros s entidades Sinapp e ABBC nem s suas subcontratadas. Adicionalmente, no houve nenhuma contratao nem pagamento pelo MP  empresa Consist para a realizao dos servios. 
PATRCIA MESQUITA 
Assessora Especial de Comunicao Social 
Ministrio do Planejamento, Oramento e Gesto 
Braslia, DF 

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO 
Em resposta ao artigo "Vida que segue" (19 de agosto), de Roberto Pompeu de Toledo, quero dizer que estou na vida pblica h 27 anos e que muito raramente indiquei pessoas para trabalhar em rgos do governo nas trs instncias de poder. Quando indiquei, sempre o fiz s claras, com carta dirigida ao rgo competente e sem esconder o cargo do indicado nem o nome do indicador. Desconheo a razo por que o articulista critica a minha postura. Se todos adotassem essa prtica, que  utilizada nos diversos pases com democracia consolidada, saberamos, de antemo, quem ajudou e quem prejudicou o pas com o seu apadrinhamento. 
BETO MANSUR 
Deputado federal (PRB-SP) e primeiro-secretrio da Cmara 
Braslia, DF 

LYA LUFT 
Diante da situao difcil em que o Brasil se encontra e do pessimismo dos brasileiros em relao s suas instituies, o artigo "Uma luz possvel" (19 de agosto), de Lya Luft, reacende a nossa crena na Justia, que, aos poucos, rompe a barreira da impunidade da qual os polticos corruptos sempre gozaram. 
NATHLIA SIMPLCIO DA SILVA 
Macaba, RN 

CSAR HIDALGO 
Excelente a entrevista com o fsico chileno Csar Hidalgo, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts  MIT ("S a educao  pouco", 19 de agosto). A corrupo crescente, alinhada e apaniguada  impunidade, como neste pas dos trpicos, mostra como a falta de confiana no governo e nas instituies  latente. Hoje, o Brasil  um mar de desconfiana em todos os sentidos. 
GERALDO ANGELINO 
Belo Horizonte, MG 

Na contundente e oportuna entrevista a VEJA, Csar Hidalgo nos mostra o caminho longo e difcil que devemos percorrer para nos libertar das amarras ideolgicas que nos ancoram no atraso. Combatermos a corrupo, tornarmo-nos confiveis e abertos para o mundo moderno  essa  a soluo a mdio e longo prazos. Educar com o objetivo de alcanar a produtividade que nos tornar necessrios aos demais  uma grande sugesto. 
DCIO ANTNIO DAMIN 
Porto Alegre, RS 

A entrevista com o chileno Csar Hidalgo  interessante, todavia mostra o que  um fsico falando de economia. Ora, o que vale mais: um vinho grand cru class da Aquitnia (Bordeaux), que tem contedo de informao mnimo mas origem exclusiva, dadas as condies planetrias nicas, ou um iPad de ltima gerao? Pois bem. Seres humanos consomem, em um almoo, uma garrafa de vinho que vale muitos iPads. O valor econmico das coisas no  baseado em complexidade de informao. Na verdade, a complexidade de informao de qualquer coisa humana  algo reproduzvel, basta haver a mquina disponvel, um crebro humano. Reproduzir as condies da Aquitnia, dominada pelos romanos,  outra histria. 
RUBENS RAMOS 
Natal (RN), via tablet 

NOVELA VERDADES SECRETAS 
A melhor novela da atualidade , sem dvida, Verdades Secretas ("Canalhice fashion", 19 de agosto). O autor, Walcyr Carrasco, mexeu em um vespeiro e acertou em cheio ao abordar temas polmicos, como o tringulo amoroso entre me, filha e mocinho  nesse caso, um cafajeste bem ao sabor brasileiro  e o mundo da moda. A atriz Grazi Massafera abandonou de vez a imagem do BBB para viver uma drogada com dramaticidade. Enfim, um folhetim que deixa sua marca na histria da teledramaturgia brasileira. 
RUVIN BER JOS SINGAL 
So Paulo, SP 

FAF DE BELM 
Entre a "sofrncia" sertaneja e a limitao musical do funk reinantes no Brasil,  muito bom ver cantoras de qualidade e histria como Faf de Belm voltar a exibir seu trabalho ("Uma cantora de garra", 19 de agosto). Entendendo sua decepo com a poltica, da qual a imensa maioria dos brasileiros compartilha,  hora de aplaudir essa mulher e comemorar o fato de a MPB ainda respirar. 
HUMBERTO BELTRAN 
Nova Alvorada do Sul, MS 

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.
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2# PANORAMA 26.8.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  O LABORATRIO CHAVISTA
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM BOMBINO  O JIMI HENDRIX DO DESERTO
     2#4 NMEROS
2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  O LABORATRIO CHAVISTA
Quando um pas toma a Nicargua como exemplo,  porque algo est muito errado.

O que acontece na Nicargua costuma interessar apenas aos nicaraguenses. O pas caribenho tem 6 milhes de habitantes, uma populao equivalente  da cidade do Rio de Janeiro, e s ganha do Haiti no ranking latino-americano do ndice de Desenvolvimento Humano. Recentemente, tem despertado o interesse dos venezuelanos, que sonham com um milagre poltico semelhante ao que aconteceu na Nicargua em 1990, quando a autoritria Frente Sandinista, formada por guerrilheiros de esquerda, perdeu o poder em eleies monitoradas por observadores internacionais. Em dezembro, a Venezuela realizar uma votao para sua Assembleia Nacional e, apesar de as pesquisas mostrarem preferncia pelos candidatos da oposio, tudo indica que o resultado ser favorvel ao governo chavista, que prendeu candidatos adversrios e expulsou os monitores externos. Recomenda-se aos venezuelanos atentarem para o que ocorreu na Nicargua depois do "milagre" de 1990. Os sandinistas saram do governo, mas no depuseram as armas e mantiveram a influncia no Judicirio. Seu lder, Daniel Ortega, voltou  Presidncia em 2007, por meio do voto. De olho no petrleo de Hugo Chvez, Ortega adotou uma verso intermediria do chavismo: aderiu aos mesmos mtodos antidemocrticos, mas manteve uma poltica de atrao de investimentos externos e de estabilidade macroeconmica. Prev-se que a Nicargua ser um dos apenas quatro pases das Amricas com crescimento do PIB superior a 4% em 2015. Eis por que a nica preocupao da senhora na foto, durante protesto em Mangua por regras eleitorais limpas, era convencer o policial a deix-la ir para casa. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
Yvonne Craig, atriz americana, a Batgirl de 26 episdios da terceira e ltima temporada (1967-1968) do seriado Batman, exibido originalmente pela rede ABC. Nascida em Taylorville, Illinois, Yvonne foi a mais jovem integrante do Ballet Russe de Monte Cario. Deixou o grupo por desavenas em relao ao elenco e partiu para Los Angeles, a fim de continuar sua carreira de bailarina. Logo, porm, ganharia pequenos papis no cinema, em filmes como Maldosamente Ingnua e O Rei do Ritmo, ambos de 1959. Pouco depois estaria ao lado de Elvis Presley em Loiras, Morenas e Ruivas (1963) e Com Caipira No Se Brinca (1964)  chegaram a ter um rpido envolvimento amoroso. A fama, contudo, s viria com a Batgirl. A super-herona era Barbara, a filha do comissrio Gordon, que, mal disfarada, passou a ajudar Batman e Robin a combater viles como Coringa e Charada. Vestindo uma insinuante roupa roxa, com capa amarela, a jovem surgia de batmoto pronta para enfrentar os "inimigos da lei". A atriz dispensava dubles na hora de distribuir socos e pontaps circenses nos bandidos, em cenas sempre acompanhadas dos "pow!", "bang!", "crash!" etc. que o seriado preservava de sua origem nas HQs. Yvonne participaria ainda de outras atraes na TV, como Jornada nas Estrelas (1969)  interpretou uma aliengena que tentava seduzir o Capito Kirk. Com o fim da carreira de atriz, foi trabalhar no ramo imobilirio. Em 2000 publicou sua autobiografia, Do Bal para a Batcaverna e Alm. Desde 2013 tratava de um cncer detectado inicialmente na mama, que chegou ao fgado. Dia 17, aos 78 anos, de complicaes da doena, em Pacific Palisades, na Califrnia. 

Bob Johnston, produtor americano de lbuns clssicos como Highway 61 Revisited (1965) e Blonde on Blonde (1966), de Bob Dylan, e At Folsom Prison (1968), de Johnny Cash. Donald William Johnston  esse era o seu nome de batismo  nasceu em Hillsboro, no Estado do Texas. Tentou se firmar como compositor e cantor, at que se empregou como produtor na Columbia Records, em Nova York. Quando Tom Wilson deixou a produo de Highway 61 Revisited, Johnston assumiu o posto. Os dois Bobs se tornaram ento amigos. Dia 14, aos 83 anos, de insuficincia cardaca, no Tennessee. 

Daniel Rabinovich, percussionista e ator portenho, integrante do grupo Les Luthiers, de msica humorstica. Ele estudou direito na Universidade de Buenos Aires e fez parte do coro da faculdade de engenharia da instituio. L conheceu os futuros parceiros do Luthiers, fundado em 1967. Com seus monlogos repletos de jogos de palavras, tornou-se referncia no humor de lngua hispnica. Dia 21, aos 71 anos, em Buenos Aires. 

 TER|18|8|2015 
Decapitado pelo Estado Islmico o arquelogo Khaled Assad, ex-diretor do Departamento de Antiguidades de Palmira, na Sria, Patrimnio da Humanidade. Ele teria se recusado a dizer onde escondera relquias histricas, justamente para deix-las fora do alcance dos jihadistas, que tomaram a cidade em maio. Fiel ao regime de Bashar Assad, Khaled  cujo corpo foi pendurado num poste  estava com 83 anos, quarenta deles dedicados  guarda dos tesouros arqueolgicos de Palmira. 


2#3 CONVERSA COM BOMBINO  O JIMI HENDRIX DO DESERTO
O guitarrista, nascido em um povoado tuaregue, no Nger, enche shows nos Estados Unidos e na Europa. Sua habilidade musical j abriu portas para que tocasse at com msicos dos Rolling Stones. Em novembro, ele vem ao Brasil.

Como foi crescer no deserto?
Os tuaregues so um grupo nmade que vive no Saara. Cresci circundado por dunas, com meus pais, minha av e meus dezesseis irmos morando na mesma casa, feita de barro. Tirvamos gua de um poo e vivamos com cabras ao redor. 

Quando se interessou pela guitarra? 
Quando eu tinha 10 anos, minha famlia precisou se mudar para a Arglia, para escapar da violncia do governo contra os tuaregues. Fui morar com primos, que me mostraram fitas de shows de Santana, Dire Straits e Jimi Hendrix, meu dolo at hoje. 

Como virou um guitarrista famoso? 
Com 15 anos, tive um mentor, que era o lder da banda mais respeitada do Nger. Os outros integrantes do grupo tinham 30, 40 anos e me chamavam de bambino, em italiano. O apelido pegou e, em algum momento, eu, que me chamo Omara Moctar, virei Bombino. Em 2007, fomos convidados para gravar uma msica em Los Angeles com Keith Richards e Charlie Watts, dos Rolling Stones. Eu ficava me perguntando: "Quem so esses velhos malucos?". 

Como era possvel no conhecer os Stones? 
A maioria dos africanos no os  conhece. Sabe de James Brown, Michael Jackson, Jimi Hendrix, mas no de roqueiros brancos. Mal falei com eles porque ainda no sabia ingls. No Nger, falam-se hau, zarma, tamaxeque, fula, rabe e francs. 

Por que acha que sua msica faz sucesso? 
O som tuaregue  carregado de emoo, e  fcil comover-se ao ouvi-lo. Isso aproxima as pessoas. Tecnicamente, ele tem similaridades com o blues. Nos shows, uso turbante, o tagelmust, para disseminar nossa cultura. 

O que mudou na sua vida, depois da fama? 
Eu era muito pobre. s vezes, no tinha dinheiro para comer. Dei casa aos meus parentes e, agora, eles no precisam se preocupar em conseguir dinheiro para pagar a eletricidade.


2#4 NMEROS
1% das partidas de futebol dos principais campeonatos, como o italiano, o francs e o alemo, tem fortes indcios de manipulao, segundo estudo da maior empresa de monitoramento de apostas do mundo, a Sportradar. 
63 pessoas foram presas apenas no Reino Unido e na Itlia nos ltimos anos por envolvimento em compra de resultados no futebol - as detenes mais recentes ocorreram na Itlia, em junho. 
2 juzes brasileiros at hoje confessaram ter fraudado resultados de jogos em troca de dinheiro, no escndalo revelado h dez anos por VEJA que ficou conhecido como mfia do apito. 
34 milhes de reais dever ser a multa imposta  CBF e  Federao Paulista de Futebol se forem condenadas no processo cvel que trata da mfia do apito. Inicialmente, a penalidade recaiu sobre os rbitros envolvidos no escndalo, Edilson Pereira de Carvalho e Paulo Jos Danelon, mas, como eles provaram no ter o dinheiro, a conta foi repassada s entidades.


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Recesso -  Pela primeira vez, os analistas consultados semanalmente pelo Banco Central passaram a prever retrao na economia no s em 2015, mas tambm em 2016 - com provvel queda de 0,15%. 
Mohammed -  O nome do profeta do Isl foi o que mais batizou recm-nascidos na Inglaterra e no Pas de Gales no ano passado,  frente de Oliver e Emily. 
Imigrantes ilegais -  O nmero dos que chegaram  Unio Europeia desde o incio do ano, 340.000, j supera o total do ano passado, 280.000, que havia sido recorde.

DESCE
Maioridade penal -  O projeto que reduz de 18 para 16 anos a idade mnima para um criminoso ser processado como adulto passou na segunda votao da Cmara dos Deputados. Ainda falta o Senado. 
Emergentes -  A desvalorizao do iuane e a perspectiva de alta dos juros nos Estados Unidos derrubaram esses mercados, que acumulam queda mdia de 8% desde o fim de julho. 
WhatsApp - O aplicativo, que agora permite ligaes, ser alvo de uma ofensiva das empresas de telecomunicaes na Anatel e na Justia.


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 GOVERNO
OS INTOCVEIS
Jos Dirceu j est h trs semanas preso e nada de o governo mexer com alguns apadrinhados seus incrustados h tempos na estrutura federal. O mais bem colocado talvez seja o chefe do Banco do Brasil na Amrica do Norte, Jos Salinas. Ainda no exterior, est Hiplito Rocha, chefe da Apex em Cuba. 

S UM SOBRA 
Em conversas reservadas, Jaques Wagner tem dito que, dada a gravidade da situao,  preciso escolher: salvar o PT ou o governo. Os dois no se salvam. Quem ser que Wagner gostaria de livrar?  

 LAVA-JATO 
EST FORA 
O acordo de lenincia firmado na quinta-feira passada pela Camargo Corra com o Ministrio Pblico Federal, em que a empresa vai pagar 700 milhes de reais  Petrobras, Eletronuclear e Eletrobras e, assim, sair da Lava-Jato, ter outra consequncia. A empreiteira se livrar das aes de improbidade contra ela. Quem costurou o acordo foi o advogado Celso Vilardi, a partir de uma ideia que originalmente surgiu com Mrcio Thomaz Bastos. 

ISSO  INCRVEL 
Preso em maro na Lava-Jato, o operador Adir Assad conseguiu fazer novas amizades na cadeia. Foi convidado por um de seus carcereiros para ser seu padrinho de casamento.  

DELAES ENCRENCADAS 
As negociaes para as delaes premiadas de Fernando Baiano e Renato Duque voltaram  estaca zero. Suas propostas foram recusadas. Os procuradores avaliaram que Duque e Baiano queriam revelar menos do que sabem em troca dos benefcios da delao. No caso de Duque, o que o MPF quer como prato principal  o PT; no de Baiano, Eduardo Cunha e outros peemedebistas menos votados.  

 CMARA 
TRANSAO IMOBILIRIA  
A casa em que Eduardo Cunha mora no Rio de Janeiro, avaliada em 4 milhes de reais, foi comprada de Luizinho Drumond, um dos maiores bicheiros do Rio de Janeiro. Cristina Dytz, a primeira mulher de Cunha e na ocasio ainda casada com o deputado, comprou a casa em 1991, quando o poder de Drumond estava em seu auge. Desde 2006, o imvel est registrado no nome de uma das empresas de Cunha, a C3 Produes Artsticas e Jornalsticas.  


 ECONOMIA 
PELA BOLA SETE 
A encrencada Sete Brasil est por um fio. A Petrobras e a empresa esto renegociando contratos firmados, mas no se entendem, e a Sete est prestes a ir para o buraco. Sua dvida com os bancos credores (Banco do Brasil, CEF, Bradesco, Ita e Santander)  de 4 bilhes de dlares. 

NO VERMELHO
Banqueiros brasileiros relevantes andam inquietos com o volume de grandes empresas brasileiras em dificuldades, com dvidas estratosfricas. 

 AVIAO 
TEMPO NUBLADO 
Antes reluzente, o mercado de compra e venda de jatos executivos, como era de esperar, travou nesta crise. O resultado  que os hangares esto cheios de jatos de brasileiros para vender. No no Brasil, porque os compradores por aqui andam escassos. Mas na Flrida.  

 OLIMPADA 
NOS ARES 
O governo estuda fechar por algumas horas o Aeroporto Santos Dumont durante provas da Olimpada de 2016. A ideia  que o aeroporto feche por janelas de uma ou duas horas para que os helicpteros que faro imagens das provas possam ter mais liberdade. Em compensao, ser permitido s companhias operar a ponte area entre o Santos Dumont e o Aeroporto de Congonhas por 24 horas durante os Jogos.  

 GENTE 
CAMPEO DE AUDINCIA 
Joo Batista Sobrinho, 81 anos, o Z Mineiro, ou o fundador da JBS,  um campeo de audincia improvvel na internet. Um filme de cinco minutos que conta a histria da fundao do grupo j alcanou um total de 90 milhes de acessos, somando-se os do YouTube e os do Facebook. Em virtude desse sucesso imprevisto, a JBS est preparando doze filmes de trs minutos cada um para ser veiculados nas redes sociais a partir de setembro. 

NO TOPO 
Os ltimos lanamentos do padre Marcelo Rossi como cantor e escritor fazem dele um raro caso de sucesso multimdia. Depois de O Tempo de Deus (Sony Music) fechar 2014 como o CD mais vendido do Brasil, com 1,4 milho de cpias, Philia (Editora Globo) passou as duas ltimas semanas como o nmero 1 das livrarias brasileiras, considerando-se todos os gneros.


 2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

Na Amazon, os funcionrios so encorajados a destruir as ideias uns dos outros em reunies. - Trecho de reportagem do dirio americano THE NEW YORK TIMES sobre o gigante da web. 

S um louco ficaria numa empresa como a descrita pelo New York Times. Espero que vocs no reconheam o que foi escrito e que se divirtam trabalhando com colegas brilhantes, ajudando a inventar o futuro rindo. - JEFF BEZOS, fundador e CEO da Amazon, em mensagem dirigida  sua equipe. Bezos  tambm dono do jornal The Washington Post. 

Dizem que limpei o servidor. Com um pano ou o qu?" - HILLARY CLINTON, pr-candidata do Partido Democrata  sucesso de Barack Obama, ironizando, numa coletiva em Las Vegas, a polmica em torno do fato de haver usado, quando era secretria de Estado, um e-mail pessoal para tratar de assuntos relativos ao cargo.

So os cubanos que tm de definir o futuro de Cuba. - JOHN KERRY, secretrio de Estado dos EUA, na reabertura da embaixada de seu pas em Havana. 

Eu sinto que agora est nas mos de Deus, e estarei preparado para o que vier. - JIMMY CRTER, 90 anos, ex-presidente dos Estados Unidos, ao anunciar, numa conversa com jornalistas, em Atlanta, que o cncer descoberto em maio no seu fgado atingiu o crebro. 

O fato de as pessoas usarem a camisa da seleo nas ruas (durante as manifestaes contra o governo)  mais uma prova de que os dirigentes da CBF tm de prestar contas. - RA, ex-jogador de futebol, em O Estado de S. Paulo.

Hoje o pblico torce pelos personagens com que mais se identifica. Ele sabe que ningum mais  s bom ou ruim. - JULIANA PAES, atriz, falando ao site Ego. Em Totalmente Demais, a prxima novela das 7 da Rede Globo, que estreia em novembro, ela far o papel de uma ambiciosa editora de moda. 

Ser modelo s fez com que eu me sentisse um pouco vazia depois de um tempo. - CARA DELEVINGNE, estrela da moda e atriz britnica, ao explicar, no jornal ingls The Times, por que se afastar do mundo fashion. 

O ocupante de nenhum outro cargo tem a capacidade de assumir o papel do presidente da Repblica. (...) A presidente  quem tem a caneta, mas no sabe o que fazer com ela. Terceirizou a articulao poltica, o comando da economia e a definio da agenda. Terceirizou o trabalho de ser presidente. - JOS SERRA, senador (PSDB-SP), no Valor Econmico. 

Mesmo que Dilma seja removida, provavelmente outro poltico medocre vai substitu-la. - FINANCIAL TIMES, dirio britnico, em editorial. 

Chegamos ao que se chamou de presidencialismo de coalizo, depois de cooptao, hoje mais adequadamente descrito como de mensalo, ou petrolo, todos instveis. Da me parecer que, passada a crise atual, viro outras. - JOS MURILO DE CARVALHO, historiador, em O Estado de S. Paulo. 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto da estupefao popular sobre as razes que trouxeram o pas at a presente encruzilhada poltica 
Nada revela mais o carter de um homem do que seu modo de se comportar quando detm um poder e uma autoridade sobre os outros: essas duas prerrogativas despertam toda paixo e revelam todo vcio. - PLUTARCO, bigrafo grego que se converteu em cidado romano (46-119).
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3# BRASIL 26.8.15

     3#1 A JUSTIA E OS MOS-SUJAS
     3#2 ARTIGO  J.R. GUZZO  UM BRASIL QUE NUNCA EXISTIU AT AGORA
     3#3 VISO ALINHADA
     3#4 OS PRXIMOS PASSOS
     3#5 A ESTRELINHA APAGOU

3#1 A JUSTIA E OS MOS-SUJAS
Apesar das feitiarias, das armaes polticas e da cultura ainda recorrente de que tudo pode se resolver atravs do bom e velho conchavo, os corruptos esto acuados com o protagonismo dos juzes  e o desespero j comea a bater em alguns.
ADRIANO CEOLIN E ROBSON BONIN

"ESTE PROCESSO PARECE REVELAR um dado absolutamente impressionante e profundamente preocupante: a corrupo impregnou-se no tecido e na intimidade de alguns partidos e instituies estatais, transformando-se em um mtodo de ao governamental e de conduta administrativa, degradando, em consequncia de atos to ignbeis, a prpria dignidade da poltica, fazendo-a descer ao plano subalterno da delinquncia institucional." 
     No estilo condoreiro que o caracteriza, o ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), como j fizera ao tempo do mensalo, produziu, na semana passada, a condenao moral definitiva do escndalo do petrolo. Est quase toda elucidada a cadeia de responsabilidades que, no dizer de Celso de Mello, fez a poltica descer ao "plano subalterno da delinquncia institucional". Empreiteiras, partidos polticos e diretores da Petrobras esto tendo seus atos ilegais criteriosamente esquadrinhados pela Operao Lava-Jato. Foram levantadas provas consistentes contra trs partidos (PT, PMDB e PP), dezenas de polticos (senadores, deputados, ministros, ex-ministros e at um ex-presidente da Repblica), ex-diretores da estatal (trs deles esto presos) e mais de uma dezena de empresas. 
     Caminham a passos bem menos rpidos e decisivos, porm, as investigaes que, certamente, vo chegar ao topo da cadeia de comando onde se desenhou a governana que permitiu ao ousado esquema criminoso prosperar durante os dois mandatos de Lula e quase todo o primeiro mandato de Dilma Rousseff. Em um tribunal de conscincias, todos os envolvidos poderiam, sem ofensa aos crentes, usar em sua defesa o que Cristo respondeu a Pncio Pilatos quando o potentado romano, irritado com o silncio do acusado, lhe disse que tinha poder para libert-lo ou crucific-lo: "Nenhum poder terias sobre mim se do alto no lhe fora dado: por isso aquele que me entregou a ti tem ainda maior pecado". Nenhum dos polticos ou diretores da Petrobras  e at alguns dos empreiteiros  acusados na Lava-Jato teria como roubar a empresa se o poder para isso do alto no lhes fora dado. O presidente da Repblica nomeia diretamente o presidente da Petrobras. O executivo federal nomeia o conselho de administrao, que, por sua vez, nomeia os diretores. O governo do PT  o scio majoritrio controlador da Petrobras e, portanto, o responsvel final pelos desarranjos ocorridos ali nos ltimos doze anos. 
     O esquema comeou a operar em 2004, no governo Lula, e funcionou, no mnimo, at 2012, no governo Dilma  embora haja evidncias de que a roubalheira tenha continuado mesmo depois da chegada da polcia. A Procuradoria-Geral da Repblica (PGR), em Braslia, a quem cabe conduzir as investigaes contra os polticos com mandato, iniciou os primeiros processos contra aqueles que seriam os usurios e beneficirios do "mtodo de ao governamental e de conduta administrativa". Na semana passada, foram oferecidas denncias contra o presidente da Cmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e contra o senador Fernando Collor (PTB-AL), ex-presidente da Repblica que perdeu o cargo por corrupo em 1992. Cunha rompeu publicamente com o Palcio do Planalto e se tornou o maior opositor do governo. Por ser um peixe pequeno no petrolo, pareceu a ele e a seus aliados que foi vingana do governo coloc-lo no primeiro lugar entre os denunciados e, pior, ao lado de Collor, smbolo da corrupo no Brasil. 
     Cunha foi denunciado por crime de corrupo e lavagem de dinheiro. A PGR pediu ao STF que ele seja condenado a um total de 180 anos de priso e a devolver 80 milhes de dlares aos cofres pblicos. As evidncias juntadas  denncia de Rodrigo Janot, procurador-geral da Repblica, so, principalmente, fruto das delaes premiadas do executivo Jlio Camargo, representante da Samsung, e do doleiro Alberto Youssef. Camargo disse que esteve frente a frente com Cunha e que o deputado lhe cobrou a segunda parcela de 5 milhes de dlares de uma propina que seria devida em um "pacote" negociado com o lobista Fernando Soares, o "Fernando Baiano". Por que razo um executivo fornecedor de sondas para a Petrobras se sentiria obrigado a dar milhes de dlares de propina a um deputado federal do PMDB por um negcio fechado com um lobista chamado Fernando Baiano? Essa pergunta no tem resposta dentro de uma estrita lgica empresarial. Mas, em sendo tudo verdade, ela  o microcosmo do que foram os esquemas de sustentao poltica do PT baseados no loteamento de cargos nas estatais e que resultaram nos escndalos do mensalo e, depois, do petrolo. Empossado em 2003, Eduardo Cunha foi at h bem pouco tempo um eficiente soldado do governo na Cmara dos Deputados. Ele indicou aliados para ocupar cargos na mquina federal durante o governo do ex-presidente Lula. Na estrutura desvendada pela Lava-Jato, caberia ao PMDB, partido de Cunha, o controle dos negcios na Diretoria Internacional da Petrobras, onde reinou por muitos anos o notrio Nestor Cerver. Portanto, teoricamente, o destino do executivo Jlio Camargo e o de Cunha deveriam ter se cruzado em torno de Cerver. Camargo no venderia sondas para a Petrobras sem a aprovao de Cerver, que, por sua vez, condicionaria o negcio a pagamento de propina ao PMDB, em geral, e a Cunha em particular. 
     A denncia de Janot no consegue ligar Cunha pessoalmente a Cerver. O procurador-geral da Repblica foi por outro caminho. Ele acusa Cunha de ter instrumentalizado a ex-deputada federal Solange Almeida, quando ela era sua colega na bancada federal do PMDB. Cunha teria redigido e convencido Solange  hoje prefeita de Rio Bonito (RJ), que tambm foi denunciada ao Supremo  a assinar pedidos de esclarecimento encaminhados ao Tribunal de Contas da Unio (TCU), ao Ministrio de Minas e Energia e  Petrobras. Esclarecimento sobre o qu, mesmo? Justamente sobre supostas irregularidades na venda de sondas da empresa representada por Jlio Camargo  Petrobras. O procurador Janot sustenta a denncia de que Solange agiu a mando de Cunha de modo a dar ao deputado um argumento de fora diante de Camargo e, assim, extrair dele a propina milionria. No que seria uma ao adequada de vigilncia da coisa pblica, o procurador Janot viu delineado um plano "no republicano" em que os pedidos de esclarecimento teriam sido disparados apenas como ameaa a Camargo, que, assim, se viu forado a pagar a propina em troca do esquecimento do assunto pela vigilante Solange Almeida. Janot sustenta sua tese tambm sobre o fato de que, antes do caso Camargo-Petrobras, a deputada Solange nunca se interessara por assuntos fora da rea focal de atuao, a educao. 
     "Sou inocente. No existe nenhuma prova contra mim", reagiu o deputado Eduardo Cunha, que atribui todo o processo a uma conspirao contra ele por sua incmoda e explcita atuao em oposio ao governo. Os deputados do PT e os ministros prximos a Dilma comemoraram quando a Procuradoria-Geral da Repblica anunciou ter protocolado a denncia em desfavor de Cunha junto ao STF. 
     Um dos 52 polticos investigados no petrolo, Eduardo Cunha, segundo o procurador, operava em uma frequncia particular. Enquanto a arraia-mida do esquema faturava de 150.000 a 500.000 reais por ms, Cunha  que, em 2011, ainda estava longe de se tornar o poderoso presidente da Cmara  teria embolsado 5 milhes de dlares em apenas uma operao. Janot narra que, entre 2006 e 2007, a rea Internacional da Petrobras, ento comandada pelo apadrinhado do PMDB Nestor Cerver, fechou com a sul-coreana Samsung a aquisio de dois navios-sonda, o Petrobras 10.000 e o Vitria 10.000. Avaliado em 1,2 bilho de dlares, o negcio rendeu 40 milhes de dlares aos corruptos. A propina foi intermediada por Jlio Camargo, que representava a Samsung, diretamente com o lobista Fernando Baiano, que exercia influncia na rea Internacional da Petrobras e, como sustenta Janot com base em afirmaes de Camargo, representaria Eduardo Cunha no esquema. Cunha teria feito andar a investigao da Cmara dos Deputados sobre as sondas quando, mostra a denncia, a Samsung deixou de pagar parte da propina prometida. 
     Mudo sobre Cunha em sua delao premiada original, Jlio Camargo reabriu o processo quando, ento, relatou aos procuradores ter se reunido pessoalmente com ele no Rio de Janeiro. Na conversa, ficou acertado que Camargo pagaria a dvida. O delator disse que recorreu ao doleiro Alberto Youssef  para fazer o pagamento a Cunha. O doleiro, por seu turno, teria feito a remessa usando contas bancrias no exterior. Uma parte da bolada teria chegado a Cunha por meio de doaes feitas por Camargo  igreja evanglica Assembleia de Deus. O procurador pediu a devoluo de 80 milhes de dlares aos cofres da Petrobras e a condenao do deputado a 180 anos de priso. Embora bem argumentada, a acusao de Janot no traz provas de que Eduardo Cunha tenha recebido o dinheiro de propina dos que teriam sido intermedirios do pagamento  o lobista Fernando Baiano e a Assembleia de Deus. 
     A Procuradoria tambm apresentou denncia contra o senador e ex-presidente da Repblica Fernando Collor (PTB-AL), suspeito de ter recebido pelo menos 26 milhes de reais em propina do petrolo. VEJA revelou que o doleiro Alberto Youssef guardava em seu escritrio comprovantes de depsitos bancrios realizados diretamente na conta de Collor que somavam 50.000 reais e que o brao-direito do doleiro, Rafael ngulo Lopez, contou ter entregado pessoalmente a Collor um pacote de 60.000 reais em propina. Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, confirmou ter pago 20 milhes de reais ao grupo do senador para obter um contrato de 650 milhes de reais na BR Distribuidora, controlada por apadrinhados de Collor desde 2010, quando o ex-presidente se tornou um fiel aliado do governo e ganhou a diretoria endinheirada como brinde. A Polcia Federal apreendeu trs carros de luxo do notrio senador que teriam sido comprados com dinheiro desviado da Petrobras. De maneira bem mais enftica do que Cunha, Collor se declarou vtima de perseguio por parte do procurador Janot. 
     Eduardo Cunha tem melhores argumentos do que Collor para sustentar sua verso de que est sendo vtima de um plano maior. A presidente Dilma Rousseff teme o impeachment. Dilma est nas mos do Congresso. As manifestaes da ltima semana deixaram mais do que claro que os destinos do PT, de Dilma e de Lula esto cada vez mais indissociveis. Com o pior ndice de popularidade da histria (apenas 7% de avaliao positiva), a presidente no pode sustentar tambm uma oposio frrea na Cmara. Uma investigao que atenue o poder de Cunha  muito bem-vinda no Planalto. Outra frente hostil, o Senado, foi anulada com o recrutamento de Renan Calheiros, presidente da Casa, para a trincheira de Dilma. Renan vinha sendo um opositor de peso ao Planalto. Mas tudo mudou h duas semanas, quando foi informado de que, por enquanto, est livre da caneta de Rodrigo Janot. Atribui-se a Renan o adiamento do julgamento das contas de Dilma pelo Tribunal de Contas da Unio (TCU). A oposio planejava usar a anunciada rejeio das contas como pea para justificar a apresentao de um pedido de impeachment.  
     A presidente retribuiu a ajuda. Na semana passada, antes de indicar o novo ministro do Superior Tribunal de Justia (STJ), o titular da Justia, Jos Eduardo Cardozo, consultou Renan sobre o nome de Marcelo Navarro Dantas. Estranho. O ministro da Justia pedir a chancela de um investigado para nomear o juiz que pode julgar um processo de seu interesse amanh  algo que passa longe de qualquer princpio republicano. Segundo mais votado da lista trplice encaminhada ao Planalto, Navarro conta com a simpatia do PMDB e com o apoio do atual presidente do STJ, Francisco Falco. O novo ministro ter de relatar os processos relacionados  Operao Lava-Jato. Dependendo de suas convices, ele poder manter corruptos e corruptores na cadeia e dar sequncia ao processo  ou o contrrio. 
     Em julho deste ano, VEJA revelou que o nome de Francisco Falco   apareceu em mensagens cifradas do empresrio Marcelo Odebrecht. Em meio s anotaes, havia a referncia "Falco" ao lado de "Aprox. STJ". A PF no decodificou a mensagem. Em julho, advogados do empresrio ingressaram com um habeas-corpus no STJ precisamente na segunda metade do recesso forense, quando Falco estaria de planto e, portanto, seria o nico responsvel por apreciar o pedido. A libertao do empreiteiro era dada como certa pelos advogados. A estratgia naufragou porque o juiz Srgio Moro decretou um segundo pedido de priso de Odebrecht, o que fez com que o habeas-corpus perdesse efeito. 
     Em um ano e meio de investigaes, a Operao Lava-Jato mandou figures e figurinhas para a cadeia. Eduardo Cunha e Collor so personagens secundrios. Mas nenhum dos crimes de que so acusados teria sido possvel se o poder para isso do alto no lhes fora dado.

O PODER E A CORRUPO
A Procuradoria-Geral da Repblica investiga 52 polticos suspeitos de envolvimento no escndalo da Petrobras. Na lista esto figures como o presidente do Congresso, o lder do PT no Senado, ex-ministros do governo Dilma, ex-ministros do governo Lula, senadores e deputados. Por enquanto, apenas Eduardo Cunha e Collor foram denunciados.

Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Congresso
ACUSAES: Corrupo passiva, lavagem de dinheiro e formao de quadrilha

Gleisi Hoffmann (PT-PR), senadora e ex-ministra da Casa Civil 
ACUSAES: Corrupo passiva e lavagem de dinheiro 

Lindbergh Farias (PT-RJ), senador 
ACUSAES: Corrupo passiva e lavagem de dinheiro

Edison Lobo  (PMDB-MA), senador e ex-ministro de Minas e Energia 
ACUSAES: Corrupo passiva e lavagem de dinheiro 

Romero Juc (PMDB-RR), senador 
ACUSAES: Corrupo passiva, lavagem de dinheiro e formao de quadrilha 

Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), deputado e ex-ministro das Cidades 
ACUSAES: Corrupo passiva, lavagem de dinheiro e formao de quadrilha 

Humberto Costa (PT-PE), senador e lder do PT 
ACUSAES: Corrupo passiva e lavagem de dinheiro 

Valdir Raupp (PMDB-RO), senador e vice-presidente do PMDB 
ACUSAES: Corrupo passiva, lavagem de dinheiro e formao de quadrilha 

Ciro Nogueira (PP-PI), senador e presidente do PP 
ACUSAES: Corrupo passiva, lavagem de dinheiro e formao de quadrilha 

Mrio Negromonte (PP-BA), ex-ministro das Cidades 
ACUSAES: Corrupo passiva, lavagem de dinheiro e formao de quadrilha 

Benedito de Lira (PP-AL), senador 
ACUSAES: Corrupo passiva e lavagem de dinheiro 

Waldir Maranho (PP-MA), deputado, vice-presidente da Cmara 
ACUSAES: Corrupo passiva, lavagem de dinheiro e formao de quadrilha 

Antonio Anastasia (PSDB-MG), senador 
ACUSAES: Corrupo passiva e lavagem de dinheiro 

HELICPTERO NA DINDA
A aeronave vermelha estacionada no heliponto dos famosos jardins da Casa da Dinda chamou a ateno dos frequentadores do Lago Parano, em Braslia, no domingo passado. Depois da Lamborghini, da Ferrari e do Porsche apreendidos pela polcia, seria um novo luxo de Collor? No era. O aparelho  do senador Wilder Morais (DEM-GO), que conta ter feito uma visita no programada ao ex-presidente. Ele disse que ia a um churrasco com um amigo (que no era Collor!) e, como ventava muito, o piloto decidiu pousar na Dinda. Indagado sobre o encontro, Collor foi enftico: "No  da sua conta".
ULLISSES CAMPBELL

"A LAVA-JATO NO VAI SER ANULADA" 
Um dos integrantes da fora-tarefa da Lava-Jato, o procurador Diogo Castor de Mattos estudou a fundo, em sua dissertao de mestrado, o que levou operaes que antecederam a Lava-Jato e que tambm miraram poderosos, como a Castelo de Areia e a Satiagraha, a morrer na praia, anuladas nos tribunais superiores. Em entrevista ao reprter Pieter Zalis, ele explica por que a atual investigao na Petrobras e em outras estatais no ter o mesmo fim. 

Muito se fala do perigo de a defesa dos acusados conseguir anular a Lava-Jato no STF, mas foi no STJ que morreram quatro operaes importantes nos ltimos anos. Qual o risco de a Lava-Jato ser anulada no STJ hoje? 
Entendo que  pouco provvel. A Quinta Turma do STJ negou todos os pedidos de habeas-corpus na Operao Lava-Jato, por unanimidade. O STF tambm analisou inmeros habeas-corpus de rus presos e negou quase todos, tambm por unanimidade. Nessas oportunidades, aventaram-se diversas teses de nulidade de provas, que foram refutadas. Alm disso, acredito que as instituies passaram por um amadurecimento muito grande aps o mensalo. Os paradigmas da impunidade da corrupo comearam a ser quebrados no Brasil. No acho que exista mais clima para fingir que nada aconteceu. Os rgos responsveis pela represso penal tm trabalhado duro para que casos como o julgamento do mensalo e a Lava-Jato no sejam "pontos fora da curva". 

Na sua anlise acadmica dessas quatro anulaes, o senhor afirma que os tribunais superiores contrariam suas prprias jurisprudncias. Que exemplos poderia dar? 
No Brasil, o sistema judicirio  muito complexo, envolve a anlise da mesma tese jurdica por diversas instncias judiciais, que muitas vezes no decidem de forma harmnica. Por exemplo: at um tempo atrs, uma das turmas do STJ entendia que arma desmuniciada era crime de porte ilegal de arma, enquanto outra turma do mesmo STJ decidia em sentido oposto, expressando que essa conduta no caracterizava ilcito penal, por ausncia de potencial lesivo. Em que pese o fato de o STJ ter a funo de uniformizar a jurisprudncia dos tribunais inferiores, na prtica se verifica que h decises diametralmente opostas dentro do prprio tribunal, o que gera insegurana jurdica para a defesa e para o Ministrio Pblico. 

O Ministrio Pblico lanou uma campanha com dez pontos para aperfeioar o combate  corrupo. Se pudesse escolher apenas um deles, para ter efeito imediato, qual seria? 
A questo do uso irracional e abusivo do habeas-corpus. O habeas-corpus  um remdio constitucional de elevada importncia. No mundo inteiro  consagrado e utilizado para cessar agresses institucionais indevidas ao direito de rus presos. No exterior,  usado em hipteses concretas de abuso do direito de rus presos. No Brasil, todavia, o habeas-corpus ganhou uma projeo totalmente incompatvel com a sua finalidade originria, de tutela da liberdade de locomoo, sendo atualmente utilizado em face de qualquer deciso judicial, estando o ru solto ou preso, transformando-se em verdadeiro agravo geral no processo penal. Isso produz um congestionamento absurdo, principalmente nos tribunais superiores. Em 2011 foram mais de 36.000 habeas-corpus impetrados no STJ, grande parte por rus soltos. Assim, somente considerando o ano de 2011, cada um dos dez ministros com competncia criminal teria de relatar e levar a julgamento pela turma por ano 3600 habeas-corpus, o que  humanamente impossvel. Estando os tribunais assoberbados de habeas-corpus, que tm preferncia de julgamento, os processos acabam nunca sendo julgados, o que acarreta a inevitvel prescrio. Dessa forma, a ideia  que o habeas-corpus seja utilizado apenas para discusses acerca da legalidade da priso, que  o que prev a Constituio Federal. 

O que pode ser feito para alterar essa realidade? 
Se queremos consolidar um sistema que funcione, como no caso do mensalo e da Lava-Jato, precisamos da aprovao das dez medidas contra a corrupo propostas pelo MPF Qualquer cidado pode contribuir para essa mudana, coletando assinaturas ou cartas de apoio. Centenas de pessoas esto fazendo isso e ajudando a escrever uma nova histria. 


3#2 ARTIGO  J.R. GUZZO  UM BRASIL QUE NUNCA EXISTIU AT AGORA
     O Brasil pode estar ganhando muito mais do que perdeu com a descida da Petrobras aos nove crculos do inferno para onde foi arrastada durante os trs ltimos governos da Repblica. Nunca se roubou tanto da brava gente brasileira, embora se tenha roubado sempre  e provavelmente se continuar roubando enquanto o pas, na prtica, for propriedade do "Estado" e obedecer  sua regra nmero 1, pela qual  obrigatrio, para quem quer produzir alguma coisa, pedir licena a quem no produz nada. Mas h sinais concretos de que o espetacular surto de corrupo dos ltimos anos, quando nossos atuais governantes decidiram transformar o uso privado do patrimnio pblico em programa, mtodo e sistema de administrao, est oferecendo uma oportunidade indita ao Brasil do futuro  a de deix-lo mais resistente do que jamais foi s epidemias de criminalidade oficial causadas pelos que mandam no governo, dentro e em volta dele, e que agora chegaram ao seu grau de intensidade mxima. Essa recompensa ser a passagem do pas a uma situao at agora praticamente desconhecida na histria brasileira: a de funcionamento pleno de um estado de direito no territrio nacional. O trabalho para  isso est sendo feito numa modesta jurisdio local, a de Curitiba, pelo juiz Srgio Moro, titular da 13a Vara da Justia Federal, pelo Ministrio Pblico Federal e pela Polcia Federal. 
     Ningum est dizendo aqui que o Brasil perdeu pouco, porque a verdade  que perdeu muito. Provavelmente nunca se saber ao certo  a conta comea num nmero mnimo de 6 bilhes de reais, estimativa oficial da prpria Petrobras para o prejuzo sofrido com esse redemoinho de corrupo que a empurrou para o precipcio, e vai at cifras no mapeadas pela aritmtica comum. Mas, por maior que seja a perda, sempre ser apenas  dinheiro  e a sabedoria popular diz que tudo o que pode ser pago com dinheiro  barato. Caras, mesmo, so aquelas coisas que o dinheiro no consegue comprar. Uma das mais preciosas  a segurana trazida pelos regimes em que o cidado vive, no dia a dia da vida real, sob o comando da lei. No  possvel haver civilizao se no h estabilidade, e no  possvel haver estabilidade sem um sistema judicial que funcione com clareza, para todos e durante o tempo inteiro. Onde a aplicao da lei  incerta, no h lei. Onde no h lei, no pode haver liberdades pblicas ou individuais, nem igualdade entre as pessoas, nem proteo verdadeira aos direitos de ningum; no pode haver democracia. O esforo do juiz Moro no processo do petrolo, junto com os procuradores federais e os agentes da PF, est colocando a sociedade brasileira sob o imprio da lei  the rule of law, como se diz no direito pblico dos Estados Unidos e da Inglaterra. Isso no tem preo. 
     A fora que realmente sustenta os procedimentos da Justia Federal na Operao Lava-Jato  a obedincia permanente  letra da lei por parte dos responsveis pelo processo. No adianta nada buscar a justia se no h nessa busca o respeito s leis em vigor no pas. Elas so as nicas que existem, e  com elas que o Poder Judicirio tem de trabalhar; combater a impunidade no autoriza ningum a passar por cima do direito de defesa, da obrigao de provar claramente cada acusao feita e de qualquer regra escrita nos cdigos da Justia penal. Agir dentro da lei   o que o Judicirio federal est fazendo, e  por isso, justamente, que sua conduta est sendo to decisiva para o avano do estado de direito no Brasil de hoje. Os fatos, a, so perfeitamente claros. Todas as decises do juiz Moro, sem nenhuma exceo, esto sujeitas ao julgamento de tribunais que ficam acima dele; os advogados dos acusados tm o direito de recorrer a essas autoridades superiores contra qualquer dos seus despachos, e vm fazendo isso desde que o processo comeou. Em praticamente todos esses recursos as decises de Moro foram confirmadas. Seu trabalho est sendo vigiado o tempo todo pelos 27 desembargadores das oito turmas do Tribunal Regional Federal da 4a Regio, com sede em Porto Alegre, mais os 33 ministros do Superior Tribunal de Justia, em Braslia, e, no fim da linha, os onze ministros do Supremo Tribunal Federal. Alm disso, ele despacha sob o olhar direto dos onze procuradores federais e dez delegados da PF, pelo menos, que do expediente na Operao Lava-Jato  ao todo, contando com ele prprio, um exrcito de 93 pessoas. O que mais estaria faltando? 
     O processo do petrolo, na verdade,  o exato contrrio do que tm afirmado desde o comeo muitos dos advogados que lideram a defesa  mais, naturalmente, o governo e todo o seu sistema de apoio. Sua ideia-me, com variaes aqui e ali,  que Moro, o Ministrio Pblico e a Polcia Federal esto criando um "regime de exceo" no Brasil, um "estado policial" que nega o direito de defesa, persegue cidados sem culpa formada, age com crueldade e prepara um golpe para a "volta da ditadura". Estariam mancomunados para tirar a liberdade de empreiteiros de obras, diretores da Petrobras, doleiros, o tesoureiro nacional do PT e quem mais estiver sendo investigado por corrupo na Justia Federal do Paran. Como assim? Ningum explica, pois no d para explicar como seria possvel montar uma conspirao secreta com a participao de quase 100 pessoas sem que ningum falasse nada.  incompreensvel, tambm, alegar arbitrariedade, violncia contra os acusados ou descaso com a produo de provas quando nada menos que 28 cidados, todos altamente postados na vida, concordaram at agora, com a plena assistncia de seus advogados, em confessar suas culpas, devolver dinheiro ganho ilegalmente e denunciar cumplicidades nos delitos que praticaram. Rus j receberam sentenas das quais no vo apelar. Mais: a "delao premiada", que levou os envolvidos a colaborar com a Justia para aliviar suas penas, s existe porque foi criada por lei. No  uma lei da "ditadura" ou do ex-presidente Fernando Henrique   a Lei 12.850, sancionada em 2013 por ningum menos que a prpria presidente Dilma Rousseff, que ainda na campanha eleitoral do ano passado a apresentava como uma das suas grandes realizaes e hoje se diz indignada com ela. 
     Uma discreta informao surgida no noticirio recente talvez seja a comprovao mais luminosa, pois tambm  a mais simples, da mudana real que o avano do estado de direito est produzindo no Brasil. O empresrio Emlio Odebrecht, segundo a notcia, queixou-se aos ex-presidentes Lula e Fernando Henrique, em conversas particulares, por no estar conseguindo fazer nada pela libertao de seu filho Marcelo, acusado de corrupo na Petrobras e preso h dois meses em Curitiba. Lula e FHC disseram-lhe palavras de consolo  e isso foi tudo que puderam fazer. No  preciso pensar mais do que dois minutos para ver que a ao da Justia est fazendo aparecer um pas que 
     
     jamais existiu antes por aqui. A Odebrecht  o quarto maior grupo empresarial do Brasil; faturou perto de 34 bilhes de dlares em 2014, emprega cerca de 170 000 pessoas diretamente e influi nos negcios de centenas de outras empresas. Desde quando um dos empresrios mais potentes do Brasil, ntimo do primeirssimo escalo do poder, fala com dois ex-presidentes da Repblica e no consegue tirar o prprio filho da cadeia? No  assim que este pas vem funcionando h 500 anos. Temos leis que no acabam mais  mas para que servem se no so aplicadas sempre, por igual e para todo mundo? A Rssia comunista tambm tinha belssimas leis  previam at a liberdade de imprensa, o voto livre e a independncia de poderes. E da? Lei no  justia. S poder haver esperana de uma sociedade justa se estiver em funcionamento genuno um sistema judicirio independente, previsvel e capaz de aplicar a lei sempre da mesma maneira  e em que os donos do poder no possam demitir os juzes que os incomodam.  o que est acontecendo no petrolo.  Marcelo Odebrecht no est preso porque  rico e preside uma empresa gigante. Est preso porque a Justia, com apoio em fatos, investiga quanto ele est devendo ao Cdigo Penal. 
     O tiroteio disparado contra Srgio Moro  uma das mais agressivas campanhas em favor da negao da Justia que o Brasil j conheceu.  tambm a comprovao de quanto a ideia de viver sob o imprio da lei  inaceitvel para as foras que mandam na vida pblica brasileira. Trata-se do condomnio formado por coronis da poltica, que operam nas grandes capitais e andam de jatinho, mas continuam dentro do seu carro de boi mental de sempre, por empresas que vivem de fazer negcios com o governo e por toda a extensa populao de parasitas cujo bem-estar material depende, de um jeito ou de outro, da mquina pblica. So representados hoje, melhor do que nunca, pelo governo do PT, seu aliado, scio, protetor e protegido  e para manterem o fazendo que chamam de "Estado" esto convencidos de que tudo serve. Vale, por exemplo, dizer que o combate  corrupo na Petrobras est fazendo o Brasil perder "1% do PIB", como descobriu a presidente Dilma. A Lava-Jato no pode "paralisar" a economia brasileira, dizem lideranas do PT e do governo  por essa maneira de ver as coisas, a economia s crescer se a ladroagem estiver liberada. A delao de um dos acusados, algum tempo atrs, foi vista como uma manobra internacional para "prejudicar a viagem da presidente aos Estados Unidos". O ex-presidente Lula compara o combate judicial  corrupo com a perseguio aos judeus na Alemanha nazista. Vale tudo, tambm, na tentativa permanente de denunciar o juiz, procuradores e policiais que investigam o petrolo como delinquentes dispostos a violar a lei para satisfazer a "opinio pblica". Personalidades tidas como juristas de elevado saber mostram- se to convencidas de suas prprias certezas que no pensam mais direito no que esto falando. Uma delas, recentemente, sustentou que o juiz Moro  "um cidado do sul com volpia para prender pessoas"  e que as confisses dos acusados esto sendo feitas "sob tortura". No seu entender, o sujeito que "est acostumado com um bom padro de vida e  posto numa sala que no tem nem privada", como ocorre com os empreiteiros e bares da Petrobras presos em Curitiba, "est sendo torturado". Para aperfeioar seu argumento, disse que um preso  um preso, e outro preso  outro preso. "Se voc viveu numa favela", comparou, d para aguentar uma cela miservel; com um doutor j no  a mesma coisa. Que mais seria preciso para comprovar a angstia do Brasil velho com a mudana ora em execuo pela Justia Federal? O autor desses pensamentos, enfim, parece ter falado por todos os que combatem os processos do petrolo ao afirmar que "nem no tempo da ditadura" houve tanto desrespeito  lei numa investigao criminal.  mesmo? Se os que dizem isso tivessem um dia levado um bom inqurito policial-militar no lombo, notariam bem depressa as diferenas entre uma poca e outra; saberiam, tambm, que uma cela no DOICodi no tem absolutamente nada a ver com o xadrez da PF de Curitiba.  um bom sinal para o Brasil que, aps um ano inteiro de esforo, tenha dado resultado zero a tentativa de demonstrar que no h corrupo no governo, ou s um pouquinho, e que tudo no passa de uma armao contra os interesses populares. A campanha fracassou porque sempre foi uma misso impossvel  pretendeu convencer a maioria da populao a acreditar que os reis no esto nus, e essa no  uma opo disponvel. O trabalho do juiz Srgio Moro est mais vivo hoje do que estava quando comeou. O estado de direito agradece. 


3#3 VISO ALINHADA
Ao pedir que a presidente Dilma faa um "gesto de grandeza" e renuncie ao cargo, FHC busca um remdio de efeito duplo: unificar o discurso dos tucanos e mandar um aceno de aliado s ruas.
MARIANA BARROS

     Em poltica, uma reivindicao pode valer mais pelo seu significado simblico que pelo efeito prtico. Na semana passada, por meio de sua pgina no Facebook, o ex-presidente Fernando Henrique pediu que a presidente Dilma Rousseff renunciasse ao cargo num "gesto de grandeza". Amenizando a radicalidade do pedido, acrescentou que a renncia poderia ser substituda pela "voz franca de que errou". O efeito prtico de exigir a renncia da presidente  prximo de zero, pois no h nenhum sinal ou suspeita de que Dilma planeje ou cogite entregar o cargo, ou mesmo fazer uma autocrtica honesta. O significado simblico, porm, j se mostrou precioso.  
     Com a bandeira da renncia, Fernando Henrique encontrou uma forma de pacificar os tucanos, divididos entre os que preferem que Dilma deixe o poder no fim do mandato, em 2018 (Geraldo Alckmin), os que gostariam que cedesse a cadeira presidencial ao vice (Jos Serra) e os que adorariam um impeachment seguido de eleies (Acio Neves). A renncia no atende ao desejo de nenhum lder tucano, mas tem algo que vale seu peso poltico em ouro: permite que todos atravessem o temporal da crise articulando seus interesses, mas debaixo do mesmo guarda-chuva. 
     Nos bastidores, onde se escreve hoje o captulo de amanh, os tucanos mantm uma atividade febril. No Congresso, tentam reaproximar-se do PMDB, fiel da balana do impeachment, depois do isolamento do deputado Eduardo Cunha, atropelado pela propina de 5 milhes de dlares, e da debandada do senador Renan Calheiros, que voltou a namorar o governo. Facilita o trabalho do PSDB o fato de que o senador troca de barco conforme as condies de navegabilidade. Diz um tucano: "Renan  igual ao capito italiano que abandonou o navio Costa Concrdia. No lugar das mulheres e crianas, ele passa na frente e sai nadando". O senador Acio Neves, o mais empenhado no impeachment, est se articulando com os demais partidos de oposio. Nesta semana, vai se reunir com os seus presidentes, junto com juristas como Miguel Reale. Discutiro um meio legal de o Congresso rejeitar as contas de Dilma mesmo que o Tribunal de Contas da Unio no o faa em seu parecer final. 
     O PSDB s aceita o impeachment com base jurdica segura. Avalia  corretamente, alis  que no existe evidncia concreta de crime de responsabilidade de Dilma, e, portanto, o impeachment agora equivaleria a atropelar a Constituio. A bandeira da renncia contorna o problema, com um bnus adicional: manda um aceno de aliado para as manifestaes de rua, que no domingo passado ajudaram a manter em alta a presso contra o Palcio do Planalto. Pela primeira vez, os tucanos participaram dos protestos. Serra foi  Avenida Paulista. Acio subiu no palanque em Belo Horizonte. Os tucanos no querem perder a simpatia das ruas, mesmo sem encampar o impeachment. Por isso, Acio fez questo de salientar que, agora, o partido e as ruas esto em "convergncia". 
     O desafio de fundo dos tucanos  funcionar como um partido poltico. Recentemente, o filsofo Jos Arthur Gianotti, historicamente prximo ao tucanato, disse: "O PSDB nunca foi um partido. Sempre foi mais uma reunio de caciques que tm suas prprias posies". O momento exige que o PSDB evite burradas, como a de trair suas convices histricas. Quando o partido votou contra o fator previdencirio, confundindo punir o governo com punir o pas, gerou desconfiana at entre seus eleitores. A unidade da "reunio de caciques"  fundamental caso o PSDB queira ser o principal beneficirio da crise.  notvel que, neste momento histrico, em que se encerra a era PT, o substituto natural, que seria o PSDB, encontre dificuldades para se credenciar ao posto. O sintoma mais patente dessa situao est no fato de que o nico lder com capital poltico para unificar o partido  o mesmo lder que carece de apetite eleitoral: FHC.


3#4 OS PRXIMOS PASSOS
Depois do protesto de domingo, movimentos tentam reforar apoios polticos, planejam aes para pressionar o TCU e partem em busca da classe C.
MARIANA BARROS

     Depois de o terceiro protesto antigoverno em cinco meses ter levado s ruas 790.000 pessoas em mais de 150 cidades brasileiras, segundo clculos da Polcia Militar, os manifestantes se fazem uma pergunta: e agora, qual o prximo passo? Se depender dos lderes dos principais grupos organizadores das manifestaes, o prximo teatro de batalha no ser s o asfalto das avenidas  o carpete dos gabinetes tambm est no horizonte. 
     Menores que os de maro, mas ainda assim maiores que os de abril, os protestos de agosto serviram para afinar o discurso dos organizadores e amadurecer novos planos de ao. Ao mesmo tempo em que sabem que no podem sumir das ruas, eles agora se preparam para centrar foras em duas frentes. 
     A primeira  o Congresso. Os esforos sero no sentido de pavimentar l o caminho para um pedido de impeachment. Os manifestantes j tm se aproximado de polticos de oposio, tanto os que defendem abertamente a queda da presidente Dilma Rousseff, como Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Paulinho da Fora (SD-SP), como aqueles um pouco mais cautelosos que eles, caso do senador Acio Neves (PSDB-MG). Pela primeira vez, os trs polticos foram aos protestos do domingo passado  o tucano chegou a discursar do alto de um carro de som com a Constituio na mo. O objetivo seguinte dos lderes  aproximar-se de setores do PMDB que fazem oposio  petista. 
     O segundo alvo na mira dos manifestantes  o Tribunal de Contas da Unio (TCU). Eles querem pressionar o rgo para que o resultado da votao das contas do governo preserve a rejeio j decidida pela rea tcnica. 
     Mas a rua no ser abandonada. O prximo grande ato, planejam os organizadores, deve ocorrer perto do dia da proclamao da independncia, 7 de setembro. O objetivo agora  engordar as manifestaes com os representantes da chamada classe C, os mais atingidos pela crise econmica. A avaliao das lideranas das manifestaes  que, embora insatisfeito com a situao poltica e econmica do pas, esse segmento pode se engajar ainda mais nos protestos. 
     Enquanto os grupos contrrios ao governo pensam em como manter as multides nas ruas, os apoiadores suam para marcar presena nelas. Na ltima quinta-feira, convocadas pelo PT  e estimuladas por ampla distribuio de sanduches de mortadela, alm do transporte gratuito em nibus fretados , 162.000 pessoas participaram de atos de apoio ao governo em 32 cidades. Na comparao com o grupo anti-Dilma, deu 5 a 1. Se a turma que foi  rua no domingo conseguir levar esse placar at o Congresso, a presidente ter um grande problema pela frente. 

"Exigiremos que se apresentem logo as denncias contra governistas envolvidos na Lava-Jato e acompanharemos o trabalho do TCU." Danilo Amaral, lder do Acorda Brasil 

"Vamos pressionar o TCU e aumentar o dilogo com polticos da oposio." Ricardo Salles, lder do Endireita Brasil 

"As justificativas do impeachment esto no relatrio do Ministrio Pblico entregue ao TCU. Queremos apoio do PMDB e da oposio." Rogrio Chequer, lder do Vem pra Rua 

"J h fundamento legal para pedir o impeachment com base no TCU. Continuaremos dando legitimidade  oposio para que ela leve o processo adiante." Kim Kataguiri, lder do Movimento Brasil Livre 

"Queremos fortalecer as lideranas da oposio e buscar o impeachment via TCU." Marcello Reis, lder do Revoltados On line


3#5 A ESTRELINHA APAGOU
Os tesoureiros do PT nos ltimos quinze anos parecem sofrer do mesmo estigma: dois esto presos e o terceiro acaba de entrar no radar da Polcia Federal.
HUGO MARQUES

     Nos primrdios do PT, a arrecadao de recursos para o partido vinha da venda de camisetas e de broches com a estrela vermelha que no passado era ostentada com orgulho pelos companheiros e simpatizantes. Foi realmente assim, mas s mesmo no princpio. Desde que o PT passou a conquistar prefeituras, os tesoureiros que arrecadavam aqueles caramingus dos incautos  luz do sol, todos aparentemente simplrios, simpticos e bonaches, transformaram-se em competentes mquinas de produzir dinheiro. Quanto mais o partido crescia, mais abarrotados ficavam os cofres. Comeou na casa dos milhares, saltou rapidamente para o milho quando Lula se viabilizou como candidato a presidente e atingiu a meta do bilho com a Petrobras. O resultado  que, dos trs romnticos tesoureiros dos ltimos quinze anos, dois esto presos por corrupo e outro acaba de piscar no radar da Polcia Federal. Nem as estrelinhas vermelhas eram o que pareciam. 
     Ex-professor de matemtica, Delbio Soares, o tesoureiro da vitoriosa campanha de Lula,  o melhor exemplo da embromao. Em 2003, instalado num luxuoso escritrio do partido em Braslia, ele oferecia aos visitantes um kit contendo o famoso broche, um adesivo e uma caneta personalizada. Era para pagar as despesas remanescentes da campanha, explicava aos visitantes. Na poca, o tesoureiro j havia selado uma parceria milionria com o publicitrio Marcos Valrio, o que mais tarde se transformaria no escndalo do mensalo. Delbio foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a oito anos e onze meses de priso por ter desviado perto de 150 milhes de reais do Banco do Brasil. Dinheiro que foi para os bolsos de petistas e aliados. Hoje, Delbio cumpre pena em regime domiciliar, e certamente se jacta do seu lado profeta: "Em trs ou quatro anos, tudo ser esclarecido e esquecido, e acabar virando piada de salo", disse ele em 2005. 
     Dez anos depois, a Operao Lava-Jato mostrou que um esquema idntico de arrecadao de propina, porm muito maior, tambm funcionava na Petrobras, agora sob a responsabilidade do tesoureiro Joo Vaccari Neto. Os investigadores calculam que foram roubados da estatal algo em torno de 19 bilhes de reais. Demorou um pouco mais de "quatro ou cinco anos", mas a profecia se cumpriu. O mensalo era realmente uma piada se comparado ao petrolo. Em apenas uma das diretorias da Petrobras, Vaccari arrecadou meio bilho de reais em propinas. So tantos os crimes que o tesoureiro cometeu que, provavelmente, ele terminar seus dias na priso, embora ainda haja muito a descobrir. E novas revelaes apontam para a mesma direo: ele e Delbio Soares no so excees. 
     O gacho Paulo Ferreira assumiu o cargo aps a queda de Delbio. Foi apresentado como algum que ajudaria a moralizar as finanas do partido. Casado com Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social do governo Dilma Rousseff, Ferreira, suplente de deputado federal, aparece como usurio de uma ramificao do esquema de corrupo que atuava no Ministrio do Planejamento. Preso na Operao Lava-Jato, o petista Alexandre Romano contou que o ex-tesoureiro estava entre os vrios colegas de partido destinatrios do dinheiro roubado. Para dificultar o rastreamento, a propina era repassada a ele atravs de um escritrio de advocacia. "Procurei o Alexandre para apresentar um escritrio amigo para prestar servios e ponto", explica Ferreira. O depoimento de Romano ajudou os investigadores a estabelecer uma importante conexo. Um dos colaboradores do caso j havia dito aos policiais que, antes de comear a tratar das propinas do petrolo com Vaccari, seu contato no PT era com um certo "Paulo Pereira". Com a descrio feita pelo executivo, a fora-tarefa j desconfiava que Paulo Pereira era, na verdade, Paulo Ferreira, o sucessor de Delbio. Agora, no h mais dvidas. 
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4# ECONOMIA 26.8.15

     4#1 SER DEBOCHE?
     4#2 VALE TUDO, PELO BILHO

4#1 SER DEBOCHE?
A indstria reclama da mo pesada do governo nas regras do novo leilo de licitaes para a explorao de petrleo. Em meio  crise, a interferncia deveria diminuir, mas ela aumentou.
THIAGO PRADO 

     Saudosa dos bons tempos em que a explorao de petrleo era trombeteada como salvao da ptria e motor que transportaria o Brasil para o melhor dos mundos, a indstria petroleira deveria estar muito satisfeita com a deciso da Agncia Nacional do Petrleo (ANP), que, aps um intervalo de dois anos, marcou para 7 de outubro mais uma rodada de licitaes para leiloar 266 blocos, em terra e no mar. No entanto, no h clima de festa no ar, e a causa  o edital publicado no incio de agosto. Em um momento de crise econmica aguda e com o barril do petrleo a menos de 50 dlares  metade do que valia na poca do ltimo leilo , as empresas e os institutos do setor esperavam mais incentivos e flexibilidade de ao. Decepcionaram-se: o documento no s mantm o peso da interferncia estatal nas regras da explorao como, em alguns casos, aumenta a carga. Tamanho  o descontentamento que a Petrobras, alm de tudo abalada financeiramente pelas consequncias da Operao Lava-Jato, est considerando pela primeira vez no participar da concorrncia, vista como pouco vantajosa. "Tnhamos de usar essa oportunidade para alavancar a indstria.  o pior e o menos atraente edital da histria das concorrncias", afirma Jorge Camargo, presidente do Instituto Brasileiro de Petrleo (IBP). 
     O maior ponto de atrito  a permanncia nos mesmos patamares da exigncia de contedo nacional, que obriga as empresas a contratar servios no Brasil  muitas vezes mais caros e de menor qualidade. S neste ano, VEJA apurou que a Petrobras pagou mais de 30 milhes de reais em multas por no conseguir cumprir a regra, que teve incio no governo Lula e  mantida e defendida com vigor por Dilma Rousseff. Como se no bastasse a agncia do governo ditar as regras de contratao de servios, o edital tambm atribui a ela arbtrio exclusivo em um novo flanco, o da abrangncia dos campos explorados. At agora, a definio dos limites das reas era compartilhada com as empresas licitadas. No novo sistema, apenas a agncia oficial faz uma avaliao, que tem impacto direto no valor dos tributos. Em julho, a prpria Petrobras sentiu o peso da interferncia do governo nas regras desse jogo: precisou pagar 350 milhes de reais extras  ANP em consequncia do entendimento da agncia de que sete reas produtoras no Parque das Baleias, na Bacia de Campos, equivaliam a apenas um campo. No leilo de outubro, o edital regulamenta de vez o papel decisrio da ANP no assunto.  
     Nos bastidores, a Petrobras reclama fortemente tanto dos termos do edital quanto do tratamento que vem tendo dentro da ANP. Segundo fontes com acesso s altas instncias do setor, a relao entre o presidente da empresa, Aldemir Bendine, e a diretora da agncia, Magda Chambriard, est bastante estremecida. Alm de pagar multas relativas  falta de contedo nacional e de ter despesas extras com a redefinio de campos, a Petrobras j foi penalizada por no cumprir planos de desenvolvimento e por outras supostas faltas  isso no seu pior momento. Afetada por anos de m gesto, por um mercado em baixa (a desacelerao recente da economia chinesa reduziu ainda mais o preo do petrleo) e pelas marcas de um gigantesco escndalo de corrupo, a estatal enfrenta falta de recursos, paralisao de obras e cancelamento de projetos. Do seu vasto programa de corte de investimentos e venda de ativos faz parte desfazer-se de 25% da BR Distribuidora, conforme anncio na semana passada. 
     At pela magnitude de suas dificuldades, a Petrobras se sente especialmente prejudicada, mas no  a nica a disparar queixas. A ANP realizou audincias pblicas para ouvir o setor na montagem do edital de licitao da 13 rodada, mas no acatou nenhuma sugesto. Pelo contrrio  dificultou os procedimentos. Agora, a empresa que  desistir da licitao, alm de pagar multa, poder at ser considerada inidnea. Outro ponto  que algumas reas em leilo so vistas como arriscadas demais no cenrio de economia frgil, como os blocos em Pelotas, no Rio Grande do Sul, sem tradio petrolfera; no Amazonas, prximo a reservas indgenas; e em Jacupe, na Bahia, dependentes de licenas ambientais. "Este  um momento em que todas as empresas petrolferas esto vendendo ativos e revendo investimentos. A ANP parece no ver que o mercado mudou", critica Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura. A agncia comemora a inscrio de 39 empresas para o leilo, mas o nmero no garante bons resultados. No Mxico, no ms passado, 34 petroleiras se candidataram para a concesso de catorze blocos. Na hora H, s dois foram leiloados. Em outubro, o Brasil corre o mesmo risco.


4#2 VALE TUDO, PELO BILHO
Incapaz de cortar seus gastos de maneira adequada, o governo, com a ajuda do Congresso, abusa da criatividade para encontrar verbas.
MARCELO SAKATE

     O Senado aprovou, na quarta-feira passada, a ltima medida do programa de ajuste fiscal originalmente proposto pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Trata-se da reduo do alvio tributrio sobre a folha de pagamento de empresas de 56 setores, que fez, s em 2014, o governo abrir mo de estimados 22 bilhes de reais em receitas. Seria, na esperana de Levy, o momento de o pas dar fim  fase de ajustes e se voltar para as reformas de induo ao crescimento sustentvel. Seria. O impacto esperado com as medidas propostas foi reduzido por meio de alteraes no Congresso. Duro mesmo foi ver a crise ter deprimido a economia para alm do esperado, derrubando a arrecadao tributria e inviabilizando a ambio (necessria) de obter superavit nas contas pblicas. A absoluta falta de dinheiro, carncia derivada da prodigalidade dos anos anteriores, traz a certeza de que o governo arrumar maneiras de tributar os brasileiros ainda mais no prximo ano. Ao mesmo tempo, os polticos da base aliada, sobretudo no Senado, abusam da criatividade para encontrar novas fontes de recursos e, dessa maneira, conseguir verbas para os projetos de seu interesse. 
     Medidas que habitavam somente discusses tericas, h vrios anos, podero agora ser transformadas em lei da noite para o dia, na esperana de dar um respiro s finanas pblicas.  o caso da lei para repatriar recursos de brasileiros no exterior. Estimativas conservadoras indicam que mais de 100 bilhes de reais poderiam ser transferidos de volta para o Brasil mediante incentivo do governo, que conseguiria arrecadar 30 bilhes de reais com a cobrana de impostos sobre esse montante. Outra medida prev a fixao de um prazo para a liberao de depsitos judiciais hoje retidos em bancos  clculos preliminares apontam para um volume de 60 bilhes de reais, dos quais 40 bilhes passariam para os cofres estaduais. Outra fonte possvel de recursos  a venda de terrenos da Marinha na costa brasileira. A esse respeito h diferentes propostas em debate no Senado. Alm disso, o governo conta tambm com 18 bilhes de reais que devem ser obtidos neste ano com o leilo de usinas hidreltricas e de campos de petrleo para a iniciativa privada. Para o governo e os congressistas, o apelo a receitas extraordinrias tem uma vantagem em relao  arrecadada por meio de impostos: elas so livres para aplicao. Chamadas de livre provimento, essas receitas no possuem destinao especfica, para reas como sade e educao, salvo algumas excees previstas em lei.  
     "Quando  obrigado a fazer um ajuste fiscal para reequilibrar as suas contas,  normal que o governo busque recursos de todas as formas possveis", diz o economista Raul Velloso. Ele explica que esse caminho  mais fcil do que aumentar impostos. "O drama do governo  convencer a sociedade dessa necessidade", afirma. Afinal, essa  uma conta que sempre acaba pesando no bolso do contribuinte brasileiro, um dos campees mundiais na categoria pagamento de impostos. No governo do PT, apelar para as receitas extraordinrias, em vez de exceo, tornou-se regra. Desde 2009, o expediente vem sendo indispensvel para fechar, aos trancos e barrancos, as contas no fim do ano. Entre 2009 e 2013, o governo obteve 139 bilhes de reais com receitas no recorrentes oriundas de eventos como o leilo do Campo de Libra, no pr-sal, e programas de refinanciamento de dvidas de empresas, em que concedeu descontos sobre o valor original dos dbitos. 
     Um estudo dos pesquisadores Vilma da Conceio Pinto e Lvio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), indica que o governo ter de vender o equivalente a 1,9% do produto interno bruto (PIB) por dois anos seguidos, em 2016 e 2017, para evitar o descontrole da dvida pblica e mant-la em nvel equivalente a 65% do PIB, dadas as premissas da Fazenda. Em valores, seriam mais de 240 bilhes de reais nos dois prximos anos em venda de ativos como empresas estatais. "Diante do quadro recessivo,  difcil que o governo consiga respeitar as projees para a dvida sem o uso de receitas no recorrentes ou um forte programa de reestruturao fiscal", afirma Vilma. O governo j conta com os tributos e os dividendos a ser obtidos com a venda de aes da BR Distribuidora, da Caixa Seguridade e do IRB Brasil, o instituto brasileiro de resseguros. 
     A situao se assemelha  de uma famlia que, em vez de cortar os seus gastos, vende a prataria e penhora as joias. O dinheiro adicional traz um alvio financeiro. Essa famlia pode at manter a pose, mas est quebrada. No caso do governo brasileiro, j est difcil at manter a pose. 

A CORRIDA PELOS BILHES
As medidas em gestao no Planalto e no Senado para levantar dinheiro e sustentar a gastana pblica (valores em reais)

REPATRIAO DE RECURSOS
O que : autorizao, mediante pagamento de tributos, para trazer ao Brasil dinheiro no declarado mantido no exterior
Valor estimado: 30 bilhes

LIBERAO DE DEPSITOS JUDICIAIS
O que : existem 60 bilhes de reais retidos em bancos pblicos para o pagamento de precatrios estaduais e municipais
Valor estimado: Pela lei em discusso, 70% dos recursos estariam liberados - ou mais de 40 bilhes

VENDA DE TERRENOS DA MARINHA
O que : hoje, h ilhas e reas da Marinha na costa ocupadas por particulares, que pagam uma taxa pela concesso. A ideia agora  privatiz-las
Valor estimado: Ainda em anlise
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5# INTERNACIONAL 26.8.15

SAIR PARA VOLTAR MAIS FORTE
No parlamentarismo, em vez de sangrar lentamente, o chefe de governo pode convocar novas eleies para estancar uma crise poltica, como fez o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras.

     O sistema poltico parlamentarista foi desenhado para produzir governos estveis. No parlamentarismo, o primeiro-ministro e os demais ministros so todos membros do Parlamento  e, eis a diferena fundamental, no precisam se licenciar de seu mandato eletivo. Ou seja, a decantada independncia de poderes no existe no parlamentarismo da maneira como a conhecemos, pois o Executivo se confunde com o Legislativo. O chefe do governo cai naturalmente, sem traumas, quando o partido no poder v esvair-se a sua maioria parlamentar  ou quando o primeiro-ministro perde a confiana do prprio partido. Em alguns regimes parlamentaristas, como  o caso da Grcia, o governo pode antecipar as eleies. Esse dispositivo cumpre duas funes pragmticas e uma depuradora. Um governo fraco, ou seja, com maioria nfima, pode antecipar eleies e negociar coalizes com outras foras polticas. J um governo forte pode aproveitar o bom momento e tentar nas urnas eleger ainda mais correligionrios. A funo depuradora: se um lder passar a governar na contramo das promessas  de campanha, o que no Brasil chamamos de "estelionato eleitoral", ele perde a legitimidade e fica pressionado a desfazer seu gabinete de ministros, renunciar e convocar novas eleies. 
     Na Grcia, novas eleies podem ser convocadas nos primeiros dezoito meses de um mandato. Disso se aproveitou o primeiro-ministro Alexis Tsipras na semana passada. Lder do partido de esquerda Syriza, Tsipras chegou ao poder h sete meses com uma plataforma que rejeitava os ajustes fiscais exigidos pelos credores internacionais para dar mais emprstimos ao pas. Depois de meses tentando vender sua ideia bizarra aos lderes europeus, Tsipras rendeu-se  realidade. Na ltima quinta-feira, ao anunciar sua renncia e as novas eleies, Tsipras reconheceu seu erro: "A legitimidade poltica resultante das eleies de 25 de janeiro esgotou seus limites, e agora o povo grego tem de se pronunciar". 
     Em outra caracterstica estabilizadora do parlamentarismo, o chefe de governo que renuncia pode, ato contnuo, se reapresentar ao eleitorado como uma opo de poder sustentada em novas bases. Se o Brasil vivesse sob o parlamentarismo, isso equivaleria a Dilma Rousseff renunciar e se recandidatar pedindo apoio a um novo modo de governar o pas que tornasse possvel, por exemplo, uma coalizo com os tucanos. Antes de renunciar, Tsipras acertou um terceiro resgate em cinco anos com os credores, que garantiram  Grcia mais 86 bilhes de euros. Os gregos j haviam dito "no" ao acordo em um referendo realizado em 5 de julho, mas isso foi antes de o impasse levar ao calote da dvida com o FMI e de o governo limitar os saques dirios nos bancos a 60 euros. A situao piorou, e Tsipras espera que os gregos tenham percebido isso. Mesmo tendo cedido aos termos exigidos pelos credores e, assim, trado a confiana do povo, Tsipras continua tendo seu governo aprovado por 61% dos gregos que responderam s recentes pesquisas de opinio. Isso se deve em grande parte a seu carisma pessoal, pois seu prprio partido tem apenas 35% de aprovao. "Se Tsipras voltar com mais fora, ter mais legitimidade para conduzir a poltica econmica", diz o economista Otto Nogami, do Insper. Um caso similar ocorreu em Israel em dezembro, quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deu fim  sua coalizo, convocou eleies antecipadas e voltou mais forte. Dilma Rousseff disse ter ouvido da chanceler alem Angela Merkel, durante sua visita a Braslia na semana passada, a seguinte afirmao sobre as virtudes do sistema parlamentar: "No parlamentarismo, a renncia no  um componente da crise. A renncia  a soluo". Gott sei Dank! 
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6# GERAL 26.8.15

     6#1 GENTE
     6#2 ESPECIAL  LEGALIZADO?
     6#3 VIDA DIGITAL  AMANTES EXPOSTOS
     6#4 COMPORTAMENTO  O DESEJO EM PLULAS
     6#5 MALSON DA NBREGA  A BANALIZAO DO IMPEACHMENT
     6#6 OLIMPADA  MARAVILHOSA NA SUPERFCIE
     6#7 AMBIENTE  O EL NIO CRESCEU

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Karina Morais

COM ELA, O TEMPO  BOM 
Foram quatro anos longe das novelas. De volta agora, como uma das protagonistas da novela das 6, ALINNE MORAES, 32, d sequncia a uma srie de personagens laboriosos  algo pouco comum para atrizes com sua idade e beleza, a quem costumam ser dados papis de boas moas. Ela j foi uma psicopata, uma modelo que se torna tetraplgica, uma jovem em aceitao com a homossexualidade e, em Alm do Tempo,  uma novia que abandona o hbito. "Estudo muito. E ao fim de cada trabalho sempre espero ter enganado bem", brinca Alinne. Me de um beb de 1 ano, uma das razes do tempo fora da TV, ela diz que a gravidez a deixou "cheia de celulites". Quem liga? Na revista ESTILO, a prova de que o tempo  bom com Alinne.

FAA S O QUE EU FALO, NO O QUE FAO 
Eles so considerados geniais por suas criaes na moda. E, como todos dessa cepa quando falam alguma bobagem, ela  to amplificada que afeta o comportamento e o bolso de muita gente. Especialmente, o deles mesmos.

DOLCE & GABBANA - DOMENICO DOLCE  contra casais gays que fazem fertilizao in vitro e, numa entrevista, disse que filhos assim so "sintticos". Elton John, Madonna e Sharon Stone incitaram um boicote  marca e, agora, temendo queda nas vendas, Dolce se desculpou com um "sinto muito". Seu scio e ex-namorado STEFANO GABBANA j quis que uma amiga fosse sua barriga de aluguel.

STELLA McCARTNEY - A inglesa construiu uma reputao por no usar pele de animais em suas roupas. Dias atrs, porm, a Peta divulgou um vdeo que mostra ovelhas na tosa sendo esfaqueadas e ao menos uma esfolada enquanto agonizava numa fazenda que fornece l para a grife da filha do ex-beatle Paul. "Estou arrasada", disse Stella, que cancelou o contrato com a fazenda.

OSCAR DE LA RENTA - No testamento do estilista, morto em 2014, foram encontradas duas instrues no que se refere ao seu nico filho, MOISS, adotado na Repblica Dominicana: ele ter direito apenas a uma nfima parte da herana de 26 milhes de dlares e, se contest-la na Justia, perder tudo. Anos atrs, depois de trabalhar com o pai, Moiss abriu sua prpria grife. De la Renta no o perdoou.

ACROBACIAS FORA DO CAMPO
Enquanto aquece sua montanha de msculos para o campeonato de futebol espanhol, que comea neste ms, o jogador portugus CRISTIANO RONALDO mostra seu poder de fogo  para o bem e para o mal  fora de campo. Na rea financeira, ele est de bola cheia: acaba de comprar um apartamento de 18,5 milhes de dlares em Nova York e deu de presente de casamento para seu empresrio uma ilha na Grcia. J na amorosa, a coisa anda murcha: sua namorada de anos, a modelo Irina Shayk, mandou-lhe um at nunca mais e j est com o ator Bradley Cooper. Duas outras modelos com quem o jogador tentou uma aproximao deram-lhe foras pblicos, pelas redes sociais, e uma quarta, gacha, que diz ter tido uma tarde de salincia com ele, lanou um livro e contou: "Ele  um pouco agressivo na cama".

ANOTA A, TOPETUDO
Rica, me de quatro filhos, apresentadora de um programa de sucesso e com 42 anos, a alem HEIDI KLUM continua a fazer trabalhos como modelo por uma nica razo: ainda  linda. O bastante para entrar na mira da metralhadora giratria de Donald Trump, candidato  presidncia americana, que ganha mais votos  medida que aumenta seu raio de violncia verbal. Dando continuidade a uma srie de ataques contra mulheres famosas ("gorda", "porca", entre outros), o bufo teve o topete de dizer que Heidi "j no merece mais uma nota 10". Dias depois da declarao, a modelo foi a um programa de entrevistas e deu a melhor resposta que podia: nem sequer mencionou o ataque e mostrou, com decote, fenda e sorrisos, que continua 10, nota 10, em todos os quesitos. Em tempo: Trump continua subindo nas pesquisas. 


6#2 ESPECIAL  LEGALIZADO?
O porte de pequenas quantidades de maconha, em discusso no Supremo Tribunal Federal, pode se tornar legal.  O primeiro voto, do relator Gilmar Mendes, foi a favor. Segundo o ministro, cabe a cada um a deciso de colocar em risco a prpria sade.
KALLEO COURA

     EM BREVE, UM BRASILEIRO QUE carregar no bolso uma quantidade de maconha menor ou igual  da imagem que ilustra esta reportagem [3 gramas de maconha, a quantidade em discusso no STF, equivale a dois cigarros pequenos da droga] no estar infringindo nenhuma lei penal. Ao menos  o que defende o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, relator do julgamento que trata da descriminalizao da posse de maconha para uso pessoal. O julgamento  iniciado na semana passada e suspenso depois que o ministro Luiz Edson Fachin pediu vista do processo  trata de um caso especfico: o do mecnico Francisco Benedito de Souza, que, condenado por roubo, foi flagrado em sua cela com 3 gramas de maconha, e por isso teve nova punio. Por se tratar de assunto de "repercusso geral"  mecanismo que estende a deciso firmada pelo tribunal a todo caso semelhante , a concluso a que chegar a corte ao fim do julgamento dever servir de referncia a todos os juzes do pas  ou seja, vai se tornar regra. 
     No Brasil, frequentemente inventam-se leis para "resolver" problemas. No  o caso da liberao do porte de maconha  muito mais uma tentativa da Justia de ficar ombro a ombro com uma realidade h muito em curso. O artigo 28 da Lei Antidrogas, de 2006, define como crime "adquirir, guardar ou portar drogas". H pelo menos uma dcada, porm, nenhum brasileiro  mandado para a cadeia por consumir maconha (as excees decorrem da dubiedade do texto legal, que no determina com clareza  quem deve ser enquadrado como usurio ou traficante). Hoje, a pena mxima para quem  flagrado com um punhado da droga no bolso  a prestao de servio comunitrio. Mesmo branda, no entanto, a punio implica uma condenao  e o usurio punido perde a primariedade. 
     Os pontos que, ao julgar o caso Souza, o STF pode mudar so principalmente dois. O primeiro  que, ao revogar o artigo 28 da Lei Antidrogas, o tribunal suspender a aplicao de qualquer penalidade ao usurio da droga, que, com isso, no correr mais o risco de ser considerado um criminoso (e reincidente, se um dia vier a ser processado criminalmente) apenas porque fuma maconha. O segundo ponto  que, se optar por estabelecer a quantidade da substncia a partir da qual o portador passa a ser tratado como traficante, o STF estar limpando uma zona cinzenta que hoje d margem a arbitrariedades e equvocos por parte de delegados e autoridades a quem cabe decidir, com base apenas na prpria convico, quais dos flagrados com a droga podem voltar para casa e quais devem ir para a cadeia. Ainda que o STF opte por no estabelecer, neste momento, um paradigma para diferenciar as duas categorias, um eventual posicionamento seu em favor de Souza poder indicar os 3 gramas de maconha que ele guardava como marco inicial de consumo pessoal. 
     O estabelecimento de um critrio objetivo para diferenciar usurios de traficantes teria ainda outro efeito positivo  o de diminuir a superlotao das prises do pas. Um estudo feito pela sociloga Juliana de Oliveira Carlos com 1040 presos em flagrante na cidade de So Paulo, e publicado pelo International Drug Policy Consortium, concluiu que 29% deles portavam 25 gramas ou menos de maconha quando foram detidos. Essa quantidade equivale ao limite que define o usurio da droga em Portugal, por exemplo. Se o Brasil, que tem mais de 160.000 presos por trfico, adotasse o mesmo marco  e se o percentual encontrado no estudo se repetisse nos demais estados , haveria hoje 50.000 pessoas a menos nas cadeias nacionais. 
     Vrios indcios reforam o argumento de que muitos dos brasileiros presos por trfico poderiam ter recebido penas mais leves que punem os usurios. Desde o comeo do ano, a Justia de So Paulo faz audincias de custdia nas quais detidos em flagrante so levados  presena do juiz em at 24 horas para que ele decida se devem permanecer presos, ter a priso relaxada ou substituda por pena alternativa. Dos 1386 detidos que compareceram a essas audincias acusados de trfico de drogas entre maro e julho, 152 foram imediatamente soltos  na maior parte dos casos porque se verificou que eram usurios, e no traficantes. 
     Desde 2011, o STF tem adotado uma posio liberal em relao a questes como a unio civil de pessoas do mesmo sexo e o aborto de fetos anencfalos. A descriminalizao do porte de maconha seria mais uma deciso que, se no segue a opinio da maioria da sociedade (trs em cada quatro brasileiros so contra a medida), avana na consolidao dos direitos individuais garantidos pela Constituio. Como disse o ministro Gilmar Mendes em seu voto, fazer com que fumar um cigarro de maconha deixe de ser crime sujeito a sano penal  respeitar o direito " privacidade e  intimidade do usurio"  bem como a deciso de "colocar em risco a prpria sade".  

Dar tratamento criminal ao uso de drogas  medida que ofende, de forma desproporcional, o direito  vida privada e  autodeterminao. - GILMAR MENDES

O QUE PODE MUDAR
Alguns dos efeitos possveis da descriminalizao, caso o STF decida que o porte de drogas para consumo no  crime.

PRISES MAIS VAZIAS - Se o STF definir uma quantidade legal para o porte, milhares de pessoas podero deixar de ir para a cadeia e outros milhares podero recorrer de suas condenaes 
MAIS TRATAMENTO - Sem o temor de terem um registro criminal, mais dependentes podem procurar ajuda mdica para se livrar do vcio. Em Portugal, onde o consumo foi descriminalizado em 2001, os gastos diretos com a sade dos consumidores de drogas cresceram 12% em cinco anos 
MAIS PESSOAS NO TRFICO - Alguns especialistas temem que, para escaparem da polcia, os traficantes possam cooptar ajudantes para transportar as drogas em pequenas quantidades, formando um "exrcito de formiguinhas" que atrairia mais gente para o crime e dificultaria o trabalho policial 
INVESTIGAO MAIS DIFCIL - Especialistas em segurana pblica afirmam que, sem monitorar os usurios, a polcia tende a perder contato com "a ltima ponta da cadeia do trfico", o que atrapalharia as investigaes para chegar aos criminosos 

OS LIMITES DA MACONHA EM CADA PAS
A quantidade permitida por portador (cada cigarro equivale a 1,5 grama da droga)

MXICO E HOLANDA: 5 GRAMAS
PARAGUAI: 10 GRAMAS
REPBLICA CHECA: 15 GRAMAS
PORTUGAL: 25 GRAMAS
ESTADOS UNIDOS: 28 GRAMAS (no Estado do Colorado, onde a venda tambm  legalizada)
ESPANHA: 200 GRAMAS

SE O LIMITE DE PORTE FOSSE DE 25 GRAMAS, COMO EM PORTUGAL,...
... 29% dos presos em flagrante por trfico na cidade de So Paulo seriam considerados consumidores, segundo o International Drug Policy Consortium.
... 12.000 DOS 41.500 que foram para a cadeia no Estado de So Paulo no ano passado estariam livres.

O EFEITO EM ESCOLAS E HOSPITAIS
     Com a opinio pblica nos Estados Unidos inclinando-se a favor da legalizao da maconha (o apoio  medida passou de 12% para 53% nos ltimos quarenta anos), vrios estados aprovaram leis nessa direo. Mais de vinte j liberaram o uso medicinal desde a dcada de 90. Na Califrnia, pedir uma receita mdica para comprar a droga  tarefa das mais fceis. Mais recentemente, quatro estados decidiram dar um passo alm e permitir tambm o uso recreativo. Em Washington, Colorado, Alasca e Oregon, cidados com mais de 21 anos podem comprar a droga, alm de refrigerantes e biscoitos de maconha, livremente em vrios estabelecimentos. No Colorado, h mais lojas de Cannabis do que lanchonetes McDonald's. No h punio para a posse da droga. 
     As consequncias dessas novas leis j podem ser notadas principalmente em Washington e no Colorado, onde o uso recreativo foi implementado h mais tempo, no incio de 2014. Desde ento, o consumo entre adultos no Colorado aumentou 33%. Fumar ou usar a droga em locais pblicos  proibido, mas muitos se sentem  vontade para faz-lo dentro do prprio carro. A quantidade de motoristas detidos por direo perigosa sob o efeito do THC, o princpio ativo da droga, dobrou em um ano. Embora estatsticas sobre acidentes ainda no sejam conclusivas, sabe-se que o risco de uma coliso duplica quando o motorista fuma a maconha. 
     O uso mais disseminado tambm tem tido impacto nos servios de sade. No Estado de Washington, cuja maior cidade  Seattle, as chamadas telefnicas pedindo ajuda em casos de intoxicao por maconha saltaram de 158, em 2013, para 246, em 2014. No Colorado, mdicos socorristas divulgaram um estudo em meados do ano passado em que notaram um aumento nos casos de sintomas ligados  intoxicao por maconha, como ansiedade, ataques de pnico e vmito. Os atendimentos de emergncia relacionados  droga subiram quase 30%. 
     O efeito mais indesejvel se deu entre crianas e adolescentes. Ainda que as lojas s permitam a entrada de adultos, os mais novos podem encontrar barrinhas e biscoitos dentro de casa ou pedir a algum que os traga. No Colorado, o uso de maconha entre os menores de 12 a 17 anos cresceu 7%. Muitos levam produtos, como bolos de maconha, para a escola. Com isso, as suspenses e expulses relacionadas a drogas subiram 40% desde que se liberou a venda para uso medicinal, em 2009.
DUDA TEIXEIRA


6#3 VIDA DIGITAL  AMANTES EXPOSTOS
WikiLeaks? Que nada. Em pnico mesmo ficaram as pessoas cadastradas em um site de relacionamentos extraconjugais cujos dados foram abertos por hackers.
JENNIFER ANN THOMAS

     Um dos papis primrios da internet, alm de seu uso inicial para fins militares e de conexo entre cientistas, foi a promoo dos encontros amorosos. A rede universal tal qual a conhecemos, com o "www", existe h apenas 26 anos. Porm, muito antes, em 1959, ocorreu a primeira experincia de uma rede social on-line, e o objetivo dos criadores, estudantes da Universidade Stanford, era justamente utilizar um algoritmo para conectar 49 homens com 49 mulheres com interesses em comum  a iniciativa rendeu namoros e at um casamento. Passadas seis dcadas, h 1500 servios de namoro on-line, um mercado que movimenta 2 bilhes de dlares. Um dos mais bem-sucedidos  o Ashley Madison, cujo modelo de negcios , digamos, a destruio de casamentos, ou a defesa da mentira, ao promover o contato de amantes extraconjugais. So 37 milhes de cadastrados (So Paulo est no topo mundial da lista de cidades com mais associados), atrados pela certeza de um servio "100% discreto". Ou seja, a pgina teria um sistema de criptografia  prova de ataques virtuais. Os usurios poderiam trair sem se expor. Na semana passada, porm, a casa caiu para o Ashley Madison. Cibercriminosos que se autodenominam Impact Team divulgaram 30 gigabytes de informaes dos clientes do site e dados do fundador da empresa, o canadense Noel Biderman. 
     O objetivo? "Expor a fraude, a decepo e a estupidez da empresa e de seus membros. O site tem milhares de perfis femininos falsos", disseram os hackers. O anncio da invaso se deu h um ms, quando os bisbilhoteiros ameaaram exibir as informaes se a Avid Life Media, dona do Ashley Madison, no encerrasse as atividades. Biderman se negou a parar, duvidou do ataque e desafiou os criminosos, apoiando uma investigao que visa a prend-los. Perdeu a parada, ao menos at agora. 
     Os hackers estavam corretos ao afirmar que o Ashley Madison enganava potenciais clientes para convenc-los a pagar por assinaturas. A pgina vendia a falsa informao de que havia praticamente o mesmo nmero de mulheres e homens registrados, o que chamava ateno ( raro haver sites de relacionamentos nos quais a proporo de perfis masculinos no seja exponencialmente superior  de femininos). Depois do vazamento, descobriu-se que eram na verdade 33 milhes de homens e apenas 4 milhes de mulheres. Do total, 20 milhes eram pessoas comprometidas. O restante era composto de solteiros  busca de sexo casual. Entre os dados revelados, algumas surpresas, como a de que os e-mails de 15.000 indivduos pertenciam a endereos ligados  Casa Branca, enquanto 1500 eram de terminao gov.br, de empregados do governo brasileiro. Biderman, o fundador do site, tambm teve dados divulgados, como e-mails profissionais e pessoais. 
     Como os hackers se escondem por trs da cortina virtual da internet  ainda no se descobriu a identidade deles , o interesse do Impact Team, o grupo bandido, ainda  enigmtico. Seriam "ativistas", como se autointitulam,  procura de destruir uma empresa que julgam como imoral e escancarar a vida dos traidores? O grupo de cibercriminosos divulgou um slogan a propsito dos usurios com sigilos quebrados: "Aprenda a lio e mude. Voc est constrangido agora, mas vai se superar". A histria parece no fazer sentido.  mais racional outra teoria levada em conta na investigao policial em  curso. A de que o Impact Team ambicionou, por motivos escusos, forar a Avid Life Media a fechar as portas. 
     No por acaso, o vazamento ocorreu no momento em que a empresa, fundada em 2001, planejava abrir seu IPO (oferta pblica inicial de aes). Com isso, esperava levantar 200 milhes de dlares e, em seguida, atingir valor de mercado de 1 bilho de dlares. Aps o ataque virtual, a Avid Life Media cogita desistir do IPO. Estima-se que a exposio dos dados afetou de tal forma a credibilidade do site que a Avid perderia ao menos 10% de seu valor estimado se fosse hoje  bolsa de valores. 
     O que no muda se o Ashley Madison fechar as portas: a internet transformou em definitivo a forma como tecemos os relacionamentos amorosos, conjugais ou extraconjugais. Dos 57 milhes de solteiros americanos, 40 milhes se inscreveram em um site de namoro. No sculo XVIII, o Romantismo tratava o ato de cortejar como "uma misso heroica  procura de sentido para a vida". Ainda  assim? Talvez, mas agora por meio de alguns poucos cliques. O futuro da Ashley Madison, se  o caso de rir dessa histria,  claro: dar um jeito de ganhar dinheiro com divrcios, resultado natural da descoberta de traies. O mais provvel  que mingue, perca toda a graa, e seus usurios corram como animais no cio para outros servios que facilitem o encontro com amantes proibidos. 

AS CIDADES QUE MAIS TRAEM 
O vazamento dos dados dos usurios do Ashley Madison trouxe tambm uma revelao para os brasileiros: So Paulo  a cidade do mundo com mais cadastrados no site. Conhea as dez mais.
1 SO PAULO
Cadastrados: 374.542
3,14% da populao
2 NOVA YORK
Cadastrados: 268.171
3,15% da populao
3 SYDNEY
Cadastrados: 251.813
5,20% da populao
4 TORONTO
Cadastrados: 222.982
7,80% da populao
5 SANTIAGO
Cadastrados: 218.125
3,59% da populao
6 MELBOURNE
Cadastrados: 213.847
4,86% da populao
7 HOUSTON
Cadastrados: 186.795
8,50% da popula.ao
8 LOS ANGELES
Cadastrados: 181.918
4,68% da populao
9 LONDRES
Cadastrados: 179.129
2,10% da populao
10 CHICAGO
Cadastrados: 162.444
6,00% da populao


6#4 COMPORTAMENTO  O DESEJO EM PLULAS
O primeiro remdio para aumentar a libido feminina foi aprovado nos EUA. O anncio abre uma indagao ainda sem resposta: o prazer das mulheres pode ser regulado quimicamente?
ADRIANA DIAS LOPES E NATALIA CUMINALE

     Vamos falar de sexo? A hora  boa e incontornvel, com a liberao, na semana passada, pela FDA, o rgo americano regulador de remdios e alimentos, da flibanserina, um medicamento que ser vendido, em forma de drgeas cor-de-rosa, a partir de outubro nos Estados Unidos com o nome comercial de Addyi. A plula foi anunciada como atalho para estimular o apetite sexual feminino. O tempo responder a uma dupla questo que naturalmente se impe depois da estrondosa autorizao: ela ter a fora comportamental revolucionria dos anticoncepcionais deflagrada nos anos 60 ou, em escala menor, o impacto nas relaes sexuais imposto pelo uso do Viagra, a partir da dcada de 90? No e no,  o que se pode responder agora. E, no entanto, essas negativas, ao contrrio de encerrar um captulo, abrem uma extraordinria janela capaz de iluminar uma busca comumente associada a um tabu, feita de silncios e recuos: a compreenso do funcionamento do desejo da mulher, algo que a cincia e os estudos da psique humana esto muito longe de traduzir adequadamente. 
     A flibanserina age diretamente no crebro. O remdio atua de forma a aumentar a liberao de dopamina, composto associado ao prazer e  excitao, e reduzir a quantidade de serotonina, relacionada  diminuio do interesse sexual. Esse intrincado mecanismo de ao foi descoberto ao acaso. Em 2006, tcnicos do laboratrio alemo Boehringer Ingelheim testavam um medicamento para a depresso. Em sucessivos experimentos, as voluntrias relataram um efeito colateral imprevisto  a melhora na vida sexual. A reao "adversa" (frisem-se aqui as aspas) surpreendeu os cientistas, j que antidepressivos tendem a apagar o fogo da libido. Desde ento, a empresa mudou o rumo das pesquisas, investindo em estudos com o novo enfoque. Em 2010, contudo, a FDA barrou o lanamento comercial do remdio pela primeira vez (faria isso numa segunda oportunidade, at o recente aval). Desinteressada, a Boehringer vendeu o medicamento quase na bacia das almas para a americana Sprout. Na ltima quinta-feira, dois dias depois do sim para o Addyi, a Sprout foi adquirida pela Valeant Pharmaceuticals, do Canad, por 1 bilho de dlares. 
     Assustavam, nas recusas de comercializao do medicamento, os fortes efeitos colaterais apontados pelo prprio fabricante, como manda a legislao  a sedao, a queda da presso arterial e os previsveis desmaios decorrentes dessa condio. Mas o grande impeditivo foi a interao do remdio com bebidas alcolicas. A combinao provoca uma baixa drstica e repentina da presso arterial, podendo levar  sncope. A Sprout, sem sada, foi forada a ampliar os estudos clnicos. Cerca de 11.000 mulheres participaram de ensaios com o composto. A FDA acatou as novas informaes, verificou que os riscos estavam dentro de limites aceitveis e cedeu  mas foi vencida mesmo por uma movimentao paralela. O laboratrio americano coordenou uma agressiva campanha de marketing cuja ponta mais visvel era um grupo feminista. As ativistas do Even the Score ("empatar o jogo") chegaram a acusar publicamente a FDA de sexismo pela negao do pedido de aprovao do remdio. Da soma de trabalhos nos laboratrios e do lobby em um tema sensvel  sociedade americana, deu-se o o.k. definitivo. 
     A flibanserina agora liberada pela agncia de sade americana no  muito diferente da flibanserina anteriormente rechaada. Os efeitos colaterais permanecem: 11% das mulheres sofrem com tonturas, outros 11% com sonolncia, 10% com nuseas e 9% com fadiga. E a antiga preocupao da FDA com a mistura ao lcool no s existe, como ser estampada em letras garrafais nas embalagens. Imps-se, ainda, como condio para a aprovao que tanto mdicos quanto farmacuticos recebam treinamento para compreender com profundidade a combinao nociva da medicao com bebidas alcolicas. Para as mulheres que adotarem o Addyi, no h dvida, sexo e bebida sero um casamento proibido. E a quem essa plula vai ser indicada? Ela foi desenvolvida para mulheres que ainda no entraram na menopausa e que sofrem de um problema sexual especfico  o transtorno de desejo sexual hipoativo (TDSH). Em outras palavras, a falta crnica de libido. Ressalve-se que a afeco tem origem fisiolgica  no se trata, de modo algum, de problema comum a mulheres "emocionalmente imaturas", como afirmou erroneamente o pai da psicanlise, Sigmund Freud, no incio do sculo XX  embora nunca se deva esquecer a escassez de informaes bioqumicas sobre o organismo humano ento disponveis para o gnio austraco. 
     O TDSH atinge cerca de 7% das mulheres. Para elas, um comprimido de 100 miligramas da flibanserina ingerido diariamente ao longo de pelo menos oito semanas resultar no aumento de uma relao satisfatria a cada 28 dias. Significa que uma mulher que tenha uma relao sexual prazerosa passar a ter duas nesse perodo. Duas se transformaro em trs etc.  pouco? No convm transformar sexo e sentimentos em estatsticas. Diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPClin), em So Paulo: "A medicao no  milagrosa, tem pouca eficcia em comparao ao placebo e possui efeitos colaterais relevantes. Mas  melhor ter algo que apresente alguma diferena do que no ter absolutamente nada". Tudo ou nada, a rigor tanto faz, cada mulher tem sua conta prpria, nica, personalssima e inexplicvel, ao menos em condies de sade normais. Nas sbias palavras do socilogo americano Tim Wadsworth, da Universidade do Colorado: "Vejo que as pessoas se preocupam mais em ter a frequncia sexual divulgada por amigos ao redor do que refletir sobre a assiduidade em si que gostariam de ter". 
     Por atalho didtico, rapidamente a flibanserina foi apelidada de "Viagra feminino". Como recurso semntico,  perfeito, faz todo o sentido. Mas est errado. Se a flibanserina, com sua capacidade antidepressiva, mexe com o circuito cerebral da libido, no caso do losango azul do Viagra, o funcionamento  mecnico, relaxando a musculatura do pnis, aumentando o aporte de sangue ao rgo e levando-o  esperada ereo. Convenhamos,  mais simples, mais fcil. A engrenagem da libido feminina  ainda um grande mistrio. A lubrificao, vital para o sexo,  mero detalhe, embora boa parte dos homens no se d conta dessa constatao. O intumescimento do organismo feminino  regido por uma delicada sinfonia de hormnios, neurotransmissores, receptores cerebrais e mais tantos outros elementos desconhecidos da cincia. Os problemas de irrigao sangunea, os descontroles hormonais ou qualquer outra disfuno tm ainda como barreiras as represses psicolgicas e comportamentais.  dura a vida da mulher se comparada  do homem. 
     Como a flibanserina no pode ser posta em p de igualdade com a plula anticoncepcional, que promoveu enorme mudana na sociedade,  o caso de consider-la como filha desse avano monumental. Em 1968, a escritora americana Pearl S. Buck (1892-1973), Nobel de Literatura, disse: "Todo mundo sabe o que a plula . Um objeto pequeno, mas que pode ter um efeito mais devastador em nossa sociedade que a bomba atmica". Ela estava certa. O anticoncepcional facilitou o controle da natalidade e libertou a mulher. O orgasmo, enfim, pde ser dissociado do risco de engravidar. E o que se procura, agora, no limite, so mais orgasmos  mesmo que precisem ser induzidos com produtos qumicos. 
     No  fcil, mesmo em tempos to liberais, enfrentar o assunto publicamente, mas seria ainda mais complicado sem a bravura pioneira de gente que cutucou preconceitos. O bilogo americano Alfred Kinsey (1894-1956) causou furor ao mapear os hbitos sexuais de homens e mulheres numa monumental srie de 18.000 entrevistas. O clebre estudo, balizado de Relatrio Kinsey, revelou que a masturbao era um hbito comum entre as mulheres. Mais: o clitris, e no o canal vaginal, era o gatilho do prazer feminino. Uma reviso de seus dados, na dcada de 70, mostrou que nada do que ele publicou em seu primeiro relatrio e no ainda mais polmico Comportamento Sexual na Fmea Humana, de 1953, pede revogao. Kinsey ajudou a derrubar os mitos sobre o prazer da mulher (que levariam seu tiro de misericrdia com outro relatrio famoso feito nos mesmos moldes, pela feminista Shere Hite, nos anos 70). Ventilou, enfim, assuntos sobre os quais se guardava silncio ou que se reservavam, na melhor das hipteses, ao div do psicanalista (Kinsey, alis, detestava Freud, a quem considerava um mistificador). Pego em cheio pela onda moralista do macarthismo, Kinsey teve suas verbas cortadas e morreu logo em seguida, em 1956, aos 62 anos, sem testemunhar a revoluo sexual da dcada seguinte, que ele indubitavelmente ajudou a impulsionar. 
     Na cola de seu trabalho, vieram a psicloga Virgnia Johnson e o ginecologista William Masters. Entre 1957 e 1965, o casal americano mediu a excitao sexual de 382 mulheres e 312 homens. O trabalho, que revelou os mecanismos da lubrificao vaginal e do orgasmo, resultou em descobertas ento ruidosas e hoje plenamente aceitas, como a de que as mulheres podem ter mltiplos orgasmos. 
      uma quimera imaginar que 100 miligramas dirios de flibanserina possam resolver o mal-estar da civilizao, as tais inadequaes. Em um artigo publicado em 2010, a ensasta americana Camille Paglia, crtica inteligente do feminismo sem sutilezas, estabelece os limites do medicamento, pondo homens e mulheres em seus respectivos papis nessa histria. Camille: "A vida familiar ps os homens burgueses em uma situao difcil. Eles so simplesmente engrenagens de uma mquina domstica dirigida pelas mulheres. As mes contemporneas so virtuosas superadministradoras de uma complexa organizao centrada no cuidado e no transporte das crianas. Mas no  to fcil passar com um estalar de dedos do controle apolneo ao xtase dionisaco". Para ela, sem meias palavras, as empresas qumicas nunca vo encontrar o Santo Graal de um "viagra feminino", a drgea levada aos cus na semana passada. "As inibies so teimosamente interiores. E a luxria  demasiadamente impetuosa para ser deixada nas mos do farmacutico", anotou. Ela tem razo. 
     Para um homem, o sexo  sempre mais simples. O que vai pela cabea masculina, salvo excees, tem apenas duas nuances. Para as mulheres,  tudo fascinantemente mais complexo, vai muito alm dos cinquenta tons. Uma charge popular nos anos 90, at hoje reproduzida, mostra com didatismo as diferenas. No mundo masculino, h um nico boto: liga/desliga. O feminino  um vasto e rico painel de controles dos mais variados tipos, incompreensvel at que algum acredite compreend-lo. 
     No h, enfim, um remdio milagroso capaz de pr desejo feminino onde ele inexiste, como tambm no h um que apague o prazer na marra. Dificilmente haver. Diz Carmita Abdo, psiquiatra e sexloga da Universidade de So Paulo (USP): "O novo remdio pode ser til para uma parcela das mulheres, mas com certeza no ser uma s plula que vai servir para melhorar o desejo de todas". No h dvida, no entanto, de que o feito extraordinrio da autorizao anunciada pela FDA, para alm de seu uso prtico, foi iluminar uma discusso que nos acompanha desde sempre e no terminar, porque nunca sabemos o lugar certo onde pr o desejo. No pequeno e belo conto Rudo de Passos, de 1974, Clarice Lispector apresentou dona Cndida Raposo, uma senhora de 81 anos de idade com "vertigem de viver" que "fora linda na juventude". Como o "desejo de prazer no passava", ela procurou um ginecologista.
     De Clarice:
     " Quando  que passa?
      Passa o qu, minha senhora?
      A coisa.
      Que coisa?
      A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
      Minha senhora, lamento lhe dizer que no passa nunca.
     Olhou-o espantada.
      Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
      No importa, minha senhora.  at morrer.
      Mas isso  o inferno!
       a vida, senhora Raposo." 
COM REPORTAGEM DE CAROLINA MELO


6#5 MALSON DA NBREGA  A BANALIZAO DO IMPEACHMENT
     O impeachment de Dilma, especula-se, evitaria que sua permanncia, em meio  crise poltica, provocasse o colapso da economia com quedas adicionais de confiana e perda do grau de investimento. A medida excepcional, sem justificativa no momento, seria, entretanto, ruim para a democracia e para a economia. O instrumento no foi criado para destituir governantes incompetentes.  recurso extremo para casos raros. 
     O impeachment surgiu na Inglaterra (sculo XIV) para atender a clamores da opinio pblica. Objetivava punir, por m conduta, ministros e altos funcionrios subordinados ao rei. Foi uma reao do Parlamento ao poder absoluto. O fim do absolutismo, com a Revoluo Gloriosa (1688), e a consolidao do regime de gabinete (sculo XIX) tornaram a medida intil, pois o gabinete de ministros pode ser derrubado pelo Parlamento atravs da rejeio de um voto de confiana. 
     A Constituio americana (1787) incorporou o impeachment. Desde ento, entende-se que o instrumento serve para situaes muito graves, dado o seu  custo poltico e econmico. Nesses 228 anos, houve apenas trs processos: os dos presidentes Andrew Johnson (1868), Richard Nixon (1974) e Bill Clinton (1998). Nixon renunciou antes do julgamento. Johnson e Clinton foram absolvidos pelo Senado. 
     Na Amrica do Sul, somente um processo foi concludo em quarenta anos, o do presidente Collor (1992). O impeachment de Dilma, na ausncia de fatos novos, seria efeito de uma marcha da insensatez gerada pelos movimentos de rua, pela perda total de coordenao poltica e pelo oportunismo de grupos da oposio. 
     O segundo impeachment no Brasil, apenas trinta anos depois do fim do regime autoritrio, banalizaria o instrumento, inibindo o amadurecimento da  democracia. A experincia mostra que a prtica eleitoral e os avanos na educao exercem efeito pedaggico em casos de ms escolhas. Os custos induzem o eleitorado a votar melhor no futuro. 
     A alternncia do poder pelo voto, no caso atual, fortalecer a cultura segundo a qual as polticas de governo precisam corresponder s promessas de campanha. Isso aumenta a previsibilidade das decises dos que ganham as eleies. 
     Se o impeachment virar uma espcie de remisso dos pecados de escolhas infelizes, o aprendizado tender a ser mais longo, ou a no se realizar. O voto de muitos se tornar irresponsvel,  semelhana dos processos de anistia fiscal. 
     A boa administrao tributria v a anistia como um incentivo  inadimplncia. O Refis  exemplo disso. Institudo em 2000, no governo FHC, ele veio a ser vulgarizado. Nos governos do PT, tornou-se mecanismo para aumentar receitas e ampliar gastos. 
     O mau exemplo se espalhou por estados e municpios. O Refis,  bvio, induz contribuintes a atrasar o pagamento de tributos, financiando-se no Tesouro a custos menores do que os dos bancos. Fiam-se no provvel perdo de multas com a reedio da regra, o que sempre se confirma. A banalizao do impeachment poderia gerar efeito parecido no eleitorado. 
     O processo de impeachment de Collor durou trs meses. Havia acusao de corrupo, o esfacelamento da base parlamentar e a perda at da mnima capacidade de articulao poltica do ento presidente. O partido dele, o PRN, tinha servido basicamente para o registro de sua candidatura presidencial. 
     A situao atual  muito diferente. H forte percepo de que Dilma no est envolvida pessoalmente em corrupo. Seu partido, o PT, perdeu apoio da opinio pblica, mas preserva certa capacidade de articulao e conta com uma aguerrida militncia. O processo de impeachment seria muito mais demorado e traumtico, com repercusses de elevada gravidade na confiana dos agentes econmicos, incluindo os investidores estrangeiros, e custos elevados para a atividade econmica e o emprego. 
     A crise requer dos lderes polticos e dos demais segmentos da sociedade esforos no sentido de buscar, pela mobilizao de vontades e por outros meios que no o impedimento, garantir condies de governabilidade que nos permitam conduzir, aos menores custos, a transio at 2018. 
     O voto nas eleies presidenciais  e no o impeachment  ser a melhor via para julgar a presidente Dilma.
MAILSON DA NOBREA  economista


6#6 OLIMPADA  MARAVILHOSA NA SUPERFCIE
Uma operao que envolve tecnologia e criatividade est sendo montada para o Rio no fazer feio nas competies de vela na Baa de Guanabara. O lixo vai ser removido, mas  melhor no olhar para o fundo
CECLIA RITTO

AbrilnoRio
FALTAM 345 DIAS

     Depois de a Baa de Guanabara perder sua grande chance de despoluio, quando a promessa de 80% de saneamento do esgoto l despejado foi riscada de vez das metas olmpicas, suas guas permanecem imundas, contaminadas e imprprias para banho. Mas, ao menos na superfcie, h melhorias  vista. Entre 8 e 18 de agosto do ano que vem, quando acontecero as competies de vela, dever ocorrer um mutiro de limpeza para remover a maior parte do lixo flutuante que enfeia e polui um dos cenrios mais espetaculares do mundo. A medida no resolver o problema, mas espera-se que, no mnimo, evite o constrangimento de aparecerem atletas prejudicados por algum plstico grudado no casco do veleiro. "Agora s d para atacar o que afeta diretamente a Olimpada, que  o lixo. O fundo continuar poludo, porque o esgoto ainda est jorrando", resume o gegrafo Marcos Freitas, do Instituto de Mudanas Globais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
     O esquema foi testado na semana passada, quando a baa recebeu o segundo e ltimo evento-teste de vela antes dos Jogos. So dois os alvos: as toneladas dirias de lixo novo arrastadas pelos rios que ali desaguam e o rastro de imundcie antiga que j boia por l. Em uma ponta da operao, a frota de ecobarcos, como so chamados, vai sugando os detritos em um percurso que cuida principalmente de interceptar qualquer sujeira que siga na direo das trs raias olmpicas localizadas na baa  uma rea de 6 quilmetros quadrados dentro dos 377 que formam a Guanabara. Em outra frente, redes feitas de material resistente  as ecobarreiras  esto sendo instaladas na boca dos rios para captar os resduos antes que sejam lanados ao mar. 
     A esse arsenal se unem as foras da natureza: a escassez de chuvas em agosto evita mais sujeira nos rios, enquanto o vento e a mar no horrio das provas ajudam a tirar o lixo do caminho da regata (veja o quadro ao lado). Mas que fique bem claro: na hora do vamos ver, nada disso significa navegar no macio azul do mar. A Baa de Guanabara exige muita percia. "As variaes de vento, chuva e correntes so enormes. Fica difcil ter um plano preciso", diz Torben Grael, medalhista olmpico e tcnico dos atletas brasileiros de vela. Um pouco menos difcil para os brasileiros, habituados a treinar sob o Po de Acar. Nesse cenrio mais imprevisvel, os meteorologistas, figuras fundamentais em qualquer equipe de vela, se tornam ainda mais necessrios. 
     Por estarem na rota de trocas massivas de gua, as trs raias da baa so menos poludas e ficam dentro do padro exigido pelo Comit Olmpico Internacional. "Nas provas de vela, exigem-se menos de 2500 coliformes para cada 100 mililitros de gua. Estamos dentro da meta", diz Andr Corra, secretrio de Ambiente do Rio. H pesquisas menos otimistas. Um estudo recente divulgado pela Fiocruz detectou uma astronmica quantidade de vrus causadores de diversas doenas. As autoridades olmpicas e especialistas relevam esse teste. "A contagem de vrus  um avano da cincia que comea a ser implementado, mas ainda faltam a essa medio parmetros bem fundamentados", diz o oceangrafo David Zee. 
     As condies para as provas de vela na baa esto sendo aprimoradas, sim, mas a maquiagem no atenua o fracasso do projeto original, o ponto mais delicado dos Jogos do Rio. J se sabe que no se repetiro os bons exemplos de outras cidades olmpicas. Em Pequim, em 2008, a Baa de Qingdao era sufocada por 50 toneladas de algas quando foi escolhida para as provas de vela; o governo acionou 10.000 pessoas, mobilizou 1000 barcos, investiu 850 milhes de dlares e ela renasceu. Em Sydney, em 2000, a Baa de Homebush, soterrada por quatro dcadas de esgoto e lixo txico, passou pela remoo de 9 milhes de metros cbicos de solo contaminado e 400 toneladas de resduos qumicos e se tornou o maior legado dos Jogos. Aqui, infelizmente, ficaremos a ver navios numa moldura espetacular. 

OPERAO FAXINA
A meta de sanear a Baa de Guanabara no vai ser cumprida. Mas, durante a Olimpada de 2016, medidas de conteno aliadas s foras da natureza devem diminuir drasticamente a circulao de lixo nos locais de competio  trs raias selecionadas por reunir melhores ventos e maior renovao de gua.
Fontes: Governo do Estado do Rio de Janeiro e Instituto de Mudanas Globais/Coppe

A CHUVA - Em agosto, o volume de chuva  de 43 milmetros - apenas 39% da mdia anual de 110. Isso diminui a sujeira: quanto menos chuva, menos lixo entra nos rios e desagua na baa.
O VENTO - No horrio das provas, depois das 13h, ele passa a soprar do mar para o continente, um efeito da subida da temperatura. Isso desvia a sujeira: ela  empurrada para o alto da baa, distante dos locais de competio. 
A MAR - Quando ela est alta, situao esperada durante parte das provas, movimenta um volume maior de gua. Isso expulsa o lixo:  a natureza agindo em favor da Olimpada.
ECOBARREIRAS - Feitas de ao e polietileno, dezessete barreiras fsicas sero colocadas na boca dos principais rios que desaguam na baa.
Previso de reteno da sujeira 15 toneladas por dia
ECOBARCOS - O servio de recolhimento do lixo flutuante ser feito por dez barcos em volta da rea das provas.
Previso de reteno da sujeira 52 toneladas por dia

COMENTRIO
O lixo retido e removido equivale a 75% dos detritos que desaguam todos os dias na baa, mas a conta deixa de fora a grande quantidade de resduos acumulados longe das reas de competio.


6#7 AMBIENTE  O EL NIO CRESCEU
A anomalia climtica, que espalha secas e tempestades, j comeou e deve se amplificar at 2016  com fora mais destruidora do que a de 1997, seu ano mais dramtico.
RAQUEL BEER

     Histrinico, corpanzil  mostra, o humorista Chris Farley, estrela do programa Saturday Night Live, criou um dos esquetes mais falados de 1997, ano em que um fenmeno da natureza virou assunto de mesa de bar. "Todas as tempestades tropicais devem curvar-se diante do El Nio. Juro por Deus que o El Nio est vindo pegar vocs", esbravejava. O tempo apagou a graa do personagem, mas o antigo sucesso, disponvel no YouTube, ajuda a entender o impacto de uma alterao climtica, batizada por pescadores do Peru e do Equador para lembrar o Menino (Nio) Jesus, em virtude de correntes martimas quentes e inesperadas que despontavam prximo ao Natal. 
     Consequncia do aquecimento brusco das guas do Pacfico tropical, o El Nio  um evento comum. Ocorre em intervalos que variam de dois a sete anos. Em 1997, ele mostrou toda a sua fora ao elevar a temperatura das guas do Pacfico em at 5 graus. O resultado foi uma montanha-russa na presso atmosfrica, com mudanas bruscas na intensidade e no rumo dos ventos. Houve secas onde era para chover e tempestades onde devia apenas chuviscar. O ano seguinte, 1998, filho do El Nio, foi o mais quente desde o incio das modernas medies. Os Estados Unidos presenciaram o perodo mais chuvoso em 104 anos e o norte do Brasil sofreu com secas e incndios florestais, no avesso das chuvas e enchentes do sul. Calcula-se que os efeitos globais do El Nio de 1997 tenham levado  morte 23.000 pessoas e deixado 45 bilhes de dlares de prejuzo. A notcia preocupante: tudo indica que, neste ano, ter incio um El Nio que pode superar o de dezoito anos atrs, mesmo em suas consequncias negativas. 
     H duas formas principais de identificar o estabelecimento de um fenmeno desse gnero (veja o quadro). Inicialmente, pela medio da temperatura das guas superficiais do Pacfico tropical. Se a elevao passa de 0,5 grau, configura-se um El Nio. Caso supere 1,5 grau, considera-se que ele  intenso. Hoje, o aumento est em torno de 1 grau. O El Nio chegou, porm no se estabilizou, e, pelas estimativas de climatologistas, isso s deve ocorrer quando ultrapassar os 2 graus. H quem aposte que chegar prximo dos 3 graus. A outra forma de identific-lo  por meio do chamado ndice de Oscilao do Sul (SOI). Trata-se de um nmero, neutro, positivo ou negativo, que mede a diferena da presso atmosfrica entre dois pontos da Terra, um na cidade australiana de Darwin e o outro no Taiti. Em situao normal, ambos tm a mesma presso. Quando h um El Nio, cria-se uma diferena negativa entre eles. 
     Um olhar cuidadoso sobre o clima ao longo deste ano e as previses para 2016 demonstram que estamos na iminncia de um El Nio crescido. H similaridades evidentes entre 1997 e 2015. Alm da alta possibilidade de a temperatura mdia do Oceano Pacfico novamente se elevar mais de 2 graus, nos dois casos a diferena apontada pelo SOI gira em torno de -15, o que evidencia uma disparidade radical entre a presso atmosfrica na Austrlia e no Taiti. Por enquanto, no sentimos os efeitos mais drsticos deste El Nio, mas um comunicado da Administrao Nacional Ocenica e Atmosfrica dos Estados Unidos (Noaa) alerta para o fato de que as piores consequncias esto por vir. H, segundo os especialistas, 85% de probabilidade de o fenmeno continuar ao menos at abril do ano que vem. 
     O El Nio deve espalhar anomalias climticas pelo planeta. O norte do Brasil, por exemplo, pode ficar ainda mais seco, vetor para incndios naturais em florestas. O sul deve sofrer com tempestades e inundaes. "O problema  que no conseguimos prever tudo com total certeza. Um El Nio nunca  igual ao antecessor", afirma a americana Michelle LHeureux, meteorologista do Centro de Previses Climticas do Noaa. Mas existem algumas pistas para indicar a dimenso do fenmeno. 
     Chove quase metade do usual no norte e no nordeste brasileiros desde maro deste ano. Em consequncia, o risco de incndios em florestas e de perdas na agricultura e na pecuria nordestinas  maior, com evidente prejuzo para a oferta de energia de fontes hidreltricas e para o abastecimento de gua. No sul, houve 64% de aumento na quantidade de chuvas em julho em relao ao ano anterior. Culturas tpicas da temporada de vero, como soja e milho, devem se beneficiar. Haver enchentes, porm, o que deve levar a mortes e a nmeros exponenciais de desabrigados. O El Nio, na trilha de seus estragos, mexe inapelavelmente com a economia mundial, sobretudo quando se verifica que os Estados Unidos estaro entre os pases hipoteticamente mais afetados. Uma rea ainda mais quente de guas do Pacfico Norte, conhecida como "a bolha"  inexistente no fenmeno extremo de 1997 , tende a diminuir a quantidade de chuvas que rumam em direo  Costa Oeste americana. Em consequncia, deve-se intensificar a gravidade da seca no Estado da Califrnia. 
     Preocupa saber que se evoluiu muito pouco ou quase nada na tecnologia de deteco e combate  anomalia climtica desde 1997. Para identificar a chegada do El Nio, ainda se usam os mesmos dois mtodos do fim dos anos 90. H bias meteorolgicas espalhadas pelo Pacfico equatorial que monitoram a temperatura de guas em at 500 metros quadrados de superfcie aqutica, a intensidade dos ventos e as condies atmosfricas. Alm disso, os climatologistas se apoiam em uma rede de mais de 100 satlites, quantidade pouco maior que a de 1997, afeitos a monitorar a temperatura dos oceanos, a formao de campos de vapor em reas dos mares e a distribuio de oznio na atmosfera. 
     Na verdade, apesar dos avanos tecnolgicos, houve falhas no monitoramento do fenmeno nos ltimos dezoito anos. Em 2012, o Noaa sofreu cortes de oramento do governo americano, sendo forado a desativar um navio encarregado da manuteno das bias no Pacfico. Resultado: quinze das antes setenta unidades no funcionam mais. Das 55 que sobraram, mais da metade apresentou falhas nos ltimos dois anos. Em resumo, o Noaa vem trabalhando com 40% dos recursos que tinha para prever e combater os efeitos do El Nio. " o fenmeno climtico mais importante da Terra e nos despreparamos para ele", reclamou o americano Michael McPhaden, cientista do Noaa que dirigiu o projeto das boias. Um editorial da revista americana Science, a mais prestigiada publicao de cincia do planeta, faz eco ao descuido: "Para economizar poucos milhes de dlares, o Noaa deixou o planeta parcialmente cego a  um fenmeno que pode custar bilhes de dlares em danos". 
     Soa exagero, parece profecia do acaso, mas  o que a cincia antecipa. No entanto, h um alento nesse cenrio de contornos ruins: sabemos hoje muito mais sobre o que  o El Nio e o que ele pode causar. Estudos que surgiram na ltima dcada comeam a associar o aquecimento global radical pelo qual a Terra tem passado no ltimo sculo, em consequncia direta da queima de combustveis fsseis como o petrleo, com o gradual crescimento da fora do El Nio. Ou seja, so os gases de efeito estufa emitidos pela humanidade que podem estar alimentando a anomalia. Se a teoria se confirmar, o setor privado poder se tornar um grande aliado. Em fevereiro deste ano, a companhia americana de explorao espacial SpaceX, criada por Elon Musk, o Steve Jobs da hora (criador tambm do sistema de pagamentos on-line PayPal e da fabricante de carros eltricos Tesla), uniu-se  Nasa para levar para os cus o primeiro satlite capaz de monitorar com apuro mudanas climticas. Inovao que deve ser usada para prever efeitos do El Nio e, assim, se preparar para eles. 

DOIS INDCIOS DE QUE...
...o fenmeno ser o mais intenso j registrado

1- A SITUAO EST PARECIDA COM A DE 1997
As imagens de satlite mostram a variao de temperatura em trecho do Oceano Pacfico tropical, em relao  mdia histrica. Apesar de parecerem iguais, a da esquerda  de 1997, quando teve incio o mais drstico El Nio j registrado. A da direita  de 2015. Ambas revelam aumento de at 5 graus na rea em vermelho, o que indica o comeo de um fenmeno intenso.
2- A VARIAO DO NDICE OCENICO NIO
O ndice, elaborado pelo Noaa, rgo do governo americano, mede a variao da temperatura da superfcie do mar no Pacfico e, assim, identifica o incio de um El Nio: se ele ultrapassa 0,5 grau, o resultado  essa anomalia climtica. Nas partes do grfico em que fica abaixo de 0,5 grau negativo, porm, ocorre a La Nia, fenmeno de efeitos opostos, que tambm podem ser drsticos. Caso o ndice seja superior a 1,5 grau, o El Nio  considerado forte. O de 1997 chegou a 2,3 graus. A estimativa  que o de 2015, j em quase 1 grau, ultrapasse 3 graus.

O de 1997, que se prolongou para o ano seguinte, fez de 1998 o ano mais quente da histria, causou secas onde deveria chover e tempestades onde o clima deveria ser mais seco, com efeitos que levaram  morte 23.000 pessoas e a danos de 45 bilhes de dlares.
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7# ARTES E ESPETCULOS 26.8.15

     7#1 TELEVISO  AO P VOLTARS
     7#2 CINEMA  S NA IMAGINAO
     7#3 CINEMA  UM DESENHO CATIVANTE
     7#4 CINEMA  ELES L, NS C
     7#5 LIVROS  A SOMBRA DO LIBERTADOR
     7#6 VEJA RECOMENDA
     7#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#8 J.R. GUZZO  RESTOS A PAGAR

7#1 TELEVISO  AO P VOLTARS
A srie Narcos, do brasileiro Jos Padilha, narra como o colombiano Pablo Escobar, chefo do Cartel de Medelln, inventou o negcio internacional do narcotrfico.
MARCELO MARTHE

     Com o semblante grave de um pai empenhado na boa educao da prole, o colombiano Pablo Emlio Escobar Gaviria passa um pito em seu filho mais velho. Em tom calmo, mas assertivo, ele explica ao menino na faixa dos 5 anos que no  correto torturar a irmzinha. "A famlia  o que temos de mais precioso", diz. O pai interrompe a conversa para atender o telefone  e a quem entra em cena  o Pablo Escobar que o mundo conheceu: o chefo mafioso que,  base da corrupo e da barbrie, transformou o trfico de cocana em uma indstria transnacional entre os anos 80 e 90. Ao ser informado que um dos matadores a seu servio  os infames sicrios  acabara de assassinar dois policiais nas ruas de Medelln, Escobar anota no livro-caixa a recompensa a que o bandido teria direito. "So mais 100 dlares para cada tira que ele matou", afirma. Diante da curiosidade do filho, Escobar conta que a conversa era s sobre negcios. Mas a ironia desoladora da situao teima em denunciar o monstro por trs do pai atencioso: "Um dia, quero ser um homem de negcios como o senhor", encerra o filho. Nem a fidelidade  famlia e aos amigos, nem o voluntarismo do filantropo que se vendia como "pai dos pobres" mudam a verdade inescapvel: Pablo Escobar era a encarnao do mal. O fato de lembrar a cada oportunidade o equvoco de se ver qualquer ambivalncia redentora no personagem  uma das grandezas de Narcos, srie produzida por Jos Padilha que traz Wagner Moura no papel do traficante colombiano  a mesma dupla brasileira do sucesso do cinema Tropa de Elite. "Escobar era um psicopata megalomanaco. S espalhou destruio", diz Padilha. 
     Nos dez episdios de Narcos, que sero lanados no servio de vdeos on demand Netflix nesta sexta-feira, 28, Padilha vale-se das armas que se mostraram valorosas em Tropa de Elite. Assim como o filme original e sua continuao examinavam sem o rano politicamente correto os mecanismos insidiosos do crime nos morros cariocas, com seus desdobramentos sobre a polcia e o poder pblico, Narcos dinamita as ideias prontas em seu retrato do inventor do narcotrfico. Escobar, por sinal, deve ser s um ponto de partida para aquilo que almejam Padilha e o roteirista americano Chris Brancato: construir um panorama do trfico de drogas ao longo de vrias temporadas. "Quando se tem uma perspectiva histrica do problema,  possvel perceber claramente o maior erro da poltica antidrogas americana: combater s a oferta e fechar os olhos para o fato de que h uma demanda imensa por essas substncias", diz Padilha. Para cada Escobar morto, ensina a srie, no faltaro sucessores a postos para atender a clientela. 
     Embora o didatismo s vezes endurea o ritmo da narrativa, Narcos permite ao espectador desvendar peculiaridades insuspeitas na economia do trfico. Mostra-se como o ditador Augusto Pinochet livrou o Chile de se tornar o epicentro do comrcio de coca nos anos 1970, ao fechar laboratrios de refino da droga no norte do pas e fuzilar traficantes. S que um deles escapou e, mudando-se para a Colmbia, apresentaria a Escobar  ento um mero contrabandista  o produto altamente viciante e lucrativo. Ao perceber que ganharia ainda mais vendendo a droga na rica Miami, o colombiano montou um imprio que faturava perto de 30 bilhes de dlares anuais, montante comparvel ao de uma grande corporao multinacional. 
     Escobar chegou a ser o sexto homem mais rico do mundo. Possua 800 propriedades (entre as quais uma fazenda com hipoptamos e zebras importados para seu lazer) e at se ofereceu, em um lance de demagogia falastrona, para pagar a dvida externa da Colmbia. Mas ao p ele voltaria  no sentido clssico da expresso sobre a finitude carnal  justamente por sua ambio pelo poder. Por meio da intimidao e da compra das conscincias, realizou o sonho de virar deputado. Mas a expulso humilhante do Parlamento, aps a revelao de seu currculo criminal, lanou-o em uma cruzada contra as autoridades. Iniciava-se a guerra suja em que polticos, juzes e at um candidato a presidente foram assassinados por seu cartel de Medelln. 
     Escobar inaugurou a era em que o trfico de drogas, anabolizado pelo lucro fcil, passou a se valer de mtodos do terror, da exploso de carros-bomba ao atentado que derrubou um avio com 107 pessoas (entre as quais no estava seu alvo, que desistiu de embarcar na ltima hora: o futuro presidente que o derrotaria, Csar Gaviria). Mais que a morte, Escobar e seus comparsas temiam a extradio para os Estados Unidos. Narrada do ponto de vista de dois agentes da DEA, a agncia antidrogas americana, a srie mostra como o traficante e movimentos de esquerda se aproximaram, de modo oportunista. A seu mando, guerrilheiros invadiram a Suprema Corte colombiana. Escobar viraria aliado de regimes esprios travestidos de libertadores dos povos, da ditadura de Manuel Noriega no Panam aos sandinistas da Nicargua. 
     Os agentes americanos Javier Pea (o chileno Pedro Pascal) e Steve Murphy (o americano Boyd Holbrook) viram a ascenso de Escobar e tiveram papel fundamental em sua queda (veja o quadro na pg. ao lado). Escobar foi morto a tiros, em 2 de dezembro de 1993, aos 44 anos, aps uma temporada na priso fajuta que construiu para si mesmo. No lugar, conhecido como La Catedral, o traficante curtia luxos e mandava queimar os corpos de inimigos em um forno. A evocao do Holocausto  bvia e chocante. "S h algum comparvel em crueldade: Adolf Hitler", disse Steve Murphy a VEJA. 
     As atrocidades cometidas por Escobar desmontam qualquer fiapo de romantismo que se imagine em sua figura. O traficante brandia a origem humilde como credencial de tradutor da "alma dos pobres". O Robin Hood da coca  cujo jeito sorumbtico  recriado por um Wagner Moura 20 quilos mais gordo  se gabava de ser "a voz dos que no tm voz".  um erro, porm, achar que o traficante seja ainda idolatrado na Colmbia. O culto persiste, no mximo, em algumas favelas agraciadas com seu dinheiro em Medelln. " mais ou menos igual ao PT e  CUT: tem meia dzia que ainda gosta deles no ABC. E s", diz Jos Padilha. A Colmbia retratada em Narcos  muito diferente do Brasil do petrolo. Mas, em qualquer caso, fica a lio histrica: nunca acreditar em desculpas populistas para o crime. 

REALIDADE MAIS SURREAL QUE A FICO
     Nos anos 80 e 90, a vida dos policiais da DEA, a agncia antidrogas americana, tinha um valor extraordinrio na Colmbia. Mas isso no era nada bom para eles: o traficante Pablo Escobar pagava 300.000 dlares por cabea. Foi nesse cenrio periclitante que os agentes Javier Pea e Steve Murphy, ambos ento nos seus 30 e poucos anos, desembarcaram no pas. Logo na chegada, Murphy e a mulher tiveram uma noo do poder da rede de informantes e comparsas do bandido: funcionrios da imigrao repassaram ao Cartel de Medelln a dica de que o casal tinha trazido um gato dos Estados Unidos. O bicho foi morto pouco depois, para amea-los. 
     Como se v em Narcos, o clima de terror no amedrontou Pea e Murphy (vividos pelos atores Pedro Pascal e Boyd Holbrook). Ao lado das foras colombianas, eles participaram das aes que levariam  queda do chefo. Os dois agentes s puderam narrar os bastidores que do mote  srie depois de se aposentar. Credita-se a Murphy, narrador de Narcos, o alerta para que o ento candidato a presidente Csar Gaviria no embarcasse no avio que acabou sendo explodido pelo cartel. "Honestamente, nunca pensei que fosse combater Escobar diretamente", disse Murphy a VEJA. "Foi impressionante testemunhar a reao de alvio dos colombianos quando ele morreu", afirma. 
     Para Pea, a realidade da Colmbia do perodo no encontra paralelo nem numa srie de fico como Breaking Bad. "Vivemos lances surreais. Muitos custam a acreditar", diz. 


7#2 CINEMA  S NA IMAGINAO
Poucos sustos, muita ansiedade: o espetacular Corrente ao Mal mostra que o verdadeiro terror est no que no se v.

      dura a vida do f de terror: ele passa filme aps filme  e como se fazem filmes de terror  sentindo tdio em vez de medo, ou tomando sustos bestas que envolvem s a parte reptiliana do crebro, ou ento se indignando com o fato de algum achar que ele pode levar a srio aqueles fantasmas e entidades comprados no saldo de computao grfica. E, no meio desse martrio, s vezes se encontra uma exceo como Corrente do Mal (It Follows, Estados Unidos, 2014), que estreia no pas nesta quinta-feira. Mal-estar, desconforto e aquele arrepio frio que percorre a nuca  o que o diretor David Robert Mitchell oferece aqui, usando de uma deliberao e de um autocontrole que so no apenas a marca da competncia, mas de um dom genuno. Quase no h sustos em Corrente do Mal. H somente a inexorabilidade do mal, do pesadelo, da ameaa que no se identifica nem tem propsito outro alm de ser o que : mal, pesadelo, ameaa. 
     No prlogo de Corrente do Mal, uma garota foge de algo que no est l. Correndo pela rua, e depois dirigindo noite adentro, ela olha para trs o tempo todo; ela, ao menos, no tem dvida de que aquilo que a apavora est a um passo de alcan-la. Na beira de um dos imensos lagos de Michigan, afinal, ela desiste: no h mais para onde seguir. No amanhecer, ela est l ainda  morta, um esgar no rosto, as articulaes fixadas em ngulos grotescos. Essa mesma ameaa indefinida entra na vida de Jay (Maika Monroe, um talento verdadeiro) na noite em que ela faz sexo pela primeira vez, em um prdio abandonado, com um rapaz com quem anda saindo: findo o clmax, ele amarra Jay a uma cadeira, vira-a de frente para a penumbra do terreno baldio e mostra a ela o que a espera  uma mulher que vem em sua direo a passo lento mas constante, alheia a tudo e concentrada apenas no seu alvo. Nem sempre ser assim, diz o rapaz. A figura  que s a presa (e o espectador)  capaz de ver  pode ser de homem ou mulher, pode ser de velho, jovem ou criana. Mas vir o tempo todo, e no vai desistir at t-la aniquilado. A no ser que Jay faa o que ele fez e d a ela uma nova presa  ou seja, que faa sexo com outra pessoa e, assim, transfira para ela o fado. 
     O assassino que, apesar do passo inalterado, est sempre encostado  sua vtima  uma figura clssica do terror e tambm do suspense. Mas poucas vezes ela ter sido usada com tanta eficcia quanto por Mitchell: nos planos abertos e simtricos com que ele fotografa os subrbios de Detroit e os distende no formato widescreen, elementos imprevistos entram em cena ao fundo ou pelos cantos da tela antes que os personagens possam detect-los. Jay e seus amigos, sem adultos presentes em sua vida de qualquer maneira substantiva, administram sozinhos sua insegurana, o pavor, as dvidas morais  ainda que dois rapazes se ofeream para fazer sexo com Jay e chamar para si a perseguio, nem Jay consegue convencer-se de que seria justo faz-lo nem tem certeza de que eles acreditam na ameaa que ela descreve; talvez seja o sexo, simplesmente, que eles desejam. H a, claro, uma tinta alegrica sobre as doenas que se transmitem pelo sexo e sobre a vergonha que acompanha o desejo sexual. Mas  a solido o grande tema de Corrente do Mal: as ruas vazias da Detroit fustigada pela falncia econmica, a sensao de enlouquecimento dos que veem aquilo que os outros no enxergam, o peso insuportvel de decidir sobre a prpria vida e a de outros. 
     Nessa politizao do horror, assim como no estilo visual e na trilha retr de sintetizador, Corrente do Mal  uma homenagem assumida a John Carpenter, o mestre de clssicos B dos anos 70 e 80 como Assalto  13 DP, Halloween, A Bruma Assassina, Fuga de Nova York e O Enigma de Outro Mundo. Mas  sobretudo um tributo  essncia do terror, que alguns cineastas tentam preservar a despeito da mediocrizao do gnero: o verdadeiro medo no est no que se mostra, tampouco em imaginar ameaas inditas. Est em tudo o que  mais antigo: na escurido, nas sombras, no que no se v ou no que se pensa ter visto. No h nada que um time de efeitos especiais seja capaz de criar que a imaginao daquele espectador ilhado em sua poltrona, no escuro, no possa conjurar em muito mais detalhe, e com potncia incomparavelmente maior. 

AS NOVAS (OU NEM TANTO) FACES DO MEDO
Como o terror atual retrabalha os temas clssicos do gnero

SOBRENATURAL OU PSICOSE?
Essa fronteira aflitiva, na qual no se sabe se os personagens so presa de uma entidade ou da prpria imaginao, j foi o objeto do "terror de arte", como em O Inquilino, de Roman Polanski, ou em Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg. Hoje, em geral, ela  explorada com minimalismo ultraeficaz, destinado a acentuar a dvida, como no australiano O Babadook e nos brasileiros Trabalhar Cansa e Quando Eu Era Vivo.

A CASA ASSOMBRADA
A ideia de que o lugar que deveria ser santurio pode na verdade ser a origem ou a morada do mal  a mais clssica de todas (vejam-se os elegantes Desafio do Alm e Os Inocentes, ambos da dcada de 60), e ganha pelo menos uma meia dzia de novos ttulos a cada ano - mas poucos to virtuossticos na forma com que tratam a prpria casa como protagonista quanto o recente Invocao do Mal. 

NS, OS CONDENADOS
Em 1968, o americano George A. Romero inoculou definitivamente os zumbis na cultura pop ao trat-los como alegoria da alienao e do consumismo em A Noite dos Mortos-Vivos. Desde ento, eles provaram-se personagens de versatilidade nica na personificao dos descaminhos civilizatrios, como em Guerra Mundial Z, com Brad Pitt, e na srie The Walking Dead. 

O GTICO
Segredos impronunciveis, pnico sexual, atmosfera febril: desde suas origens, h coisa de dois sculos, o terror gtico foi sempre a vertente mais excitvel e mais afeita ao excesso na arte de provocar o medo. Honrar essa vocao em vez de tentar moder-la  a misso que se atribuem criaes barrocas como a srie Penny Dreadful e o ainda indito A Colina Escarlate, do diretor Guillermo del Toro. 


7#3 CINEMA  UM DESENHO CATIVANTE
O lindssimo O Pequeno Prncipe conta uma histria em torno da histria de Antoine de Saint-Exupry.

     De nada adiantaram tanto treino e tanto ensaio: diante da banca de seleo para a escola mais rigorosa da cidade, a Garotinha, nervosssima, falha. Me e filha saem arrasadas: aos 8 anos, a Garotinha j traou seu futuro, e ele no  auspicioso. A alternativa  mudar de bairro, para que a escola tenha de aceitar a menina apesar da reprovao. E a nica casa  venda no bairro de construes perfeitamente idnticas e imaculadas fica ao lado de uma manso torta e malcuidada, onde um velhinho senil ( o que pensam os vizinhos) vive lidando com um aviozinho enferrujado no quintal. No que a Garotinha deva se preocupar com o Aviador: mame dividiu todos os dias do vero, minuto a minuto, em estudos e tarefas. O velhinho, porm, no  do tipo que passa despercebido, e a cada dia a Garotinha d menos ateno  planilha de trabalhos e mais ao Aviador: est fisgada pela histria que ele conta sobre um pequeno prncipe que se apaixonou por uma rosa e cativou uma raposa  e tambm pela manso cheia, de bricabraques, pelo telescpio dependurado no balco, pela desordem de mato e flores do jardim. Est fisgada, sobretudo, pela novidade que  ter para si o tempo de um adulto. O espectador, esse possivelmente estar fisgado pela riqueza da personalidade da pequena protagonista, pela beleza do desenho e pela ideia to engenhosa sobre a qual se estrutura O Pequeno Prncipe (The Little Prince, Frana, 2015), j em cartaz no pas: em vez de uma adaptao literal, o que se tem aqui  uma histria em torno da histria  uma crnica do impacto que o livro pode ter na imaginao de uma criana e do efeito que a imaginao, libertada, pode produzir na vida. 
     Publicado em 1943, O Pequeno Prncipe pertence a uma categoria rarefeita  a dos best-sellers perenes. Um dos livros mais traduzidos da histria, com vendas anuais sempre na casa dos milhes de exemplares, a noveleta ilustrada de Antoine de Saint-Exupry (1900-1944) vem tambm protagonizando um fenmeno: atravessa um pico de popularidade desde que os direitos sobre a obra passaram ao domnio pblico e diferentes edies, de vrios selos, se multiplicaram nas livrarias. E, no entanto,  parte um equivocado filme em live action de 1974 e um ou outro desenho obscuro, O Pequeno Prncipe escapara at aqui de ser adaptado. Ainda bem: no s o momento  propcio, como  difcil imaginar um esforo mais bem-sucedido que a animao do americano Mark Osborne. 
     Como j demonstrara em Kung Fu Panda, Osborne  um diretor de considervel cultura visual. Aqui, a histria da Garotinha  narrada em animao 3D digital, em um estilo que fica a meio caminho entre as figuras amigveis com cores de balinha da Dream-Works e o desenho em 2D tradicional do francs Sylvain Chomet, dos magistrais (e bem mais lgubres) As Bicicletas de Belleville e O Mgico: quanto mais a Garotinha conhece o mundo e a sua obsesso pela eficincia, mais se d conta de quanto  opressivo o futuro que talvez a aguarde. J a histria dentro da histria, a que o Aviador (que seria, na verdade, o prprio Saint-Exupry) conta para a Garotinha sobre o menino loiro, vestido com uma casaca, que encontrou no deserto,  uma dessas coisas que s a pacincia insana de um animador poderia conceber: uma animao em stop motion feita com papel  dobrado, colado, recortado, amassado, sempre com um resultado deslumbrante, que ao mesmo tempo reproduz o trao das ilustraes de Saint-Exupry e remove delas a familiaridade excessiva.  isto, enfim, que faz Osborne: devolver o lirismo e a novidade a uma histria to conhecida, e assim redescobri-la. 


7#4 CINEMA  ELES L, NS C
Que Horas Ela Volta? pe  prova o velho arranjo domstico brasileiro.

     Todo o poder de observao, a habilidade de construo e as delicadezas de tonalidade que a paulistana Anna Muylaert foi depurando em Durval Discos,  Proibido Fumar e Chamada a Cobrar se concentram em Que Horas Ela Volta? (Brasil, 2015), que estreia no pas nesta quinta-feira  um feito ainda mais admirvel quando se consideram as armadilhas do terreno que ela percorre. Regina Cas, em um trabalho to carismtico quanto persuasivo,  Val, empregada numa casa do Morumbi, em So Paulo. Foi Val quem criou Fabinho (Michel Joelsas), ao menos no sentido afetivo do termo, enquanto sua patroa, Barbara (Karine Teles), trabalhava e seu patro, Carlos (Loureno Mutarelli), se deprimia pelos cantos. Ao mesmo tempo, parentes criavam Jssica (Camila Mrdila), a filha de Val, em Pernambuco. Barbara e Carlos, que  maneira to tpica brasileira dependem da empregada at para beber um copo d'gua, tm grande afeio por Val  e muita pena tambm, quando se lembram que a filha h anos se recusa a falar com ela. De onde  lgico que, sim, Val pode hospedar Jssica em seu quarto enquanto a garota faz vestibular para arquitetura na USP. Por acaso, tambm Fabinho vai prestar vestibular. 
     Jssica, porm, no tem nenhuma concepo dos protocolos arcanos que regem esse tipo de convivncia. Ela arranca do fascinado Carlos um convite para ficar no quarto de hspedes, senta-se  mesa da famlia, aceita que Barbara lhe faa um suco (e finge no ver que ela est fumegando de raiva), entra na piscina. E, o tempo todo, repreende Val por ser to servil. No  s nessa casa que essas barreiras esto sob combate, claro   pelo pas afora,  medida que o arranjo socioeconmico se modifica e uma classe que antes estava fadada aos pequenos servios adquire aspiraes, e tambm os recursos para concretiz-las ( brilhante, alis, a cena em que sai o gabarito do vestibular). O mais cativante do filme, porm, no  seu humor to certeiro, a cmera excelente que v a casa pelos ngulos limitados de Val, o desempenho cheio de sabor de Regina   a fineza com que Anna Muylaert disseca o cadver nem sempre cordial das relaes domsticas. Que Horas Ela Volta?  a chance de a diretora afinal encontrar o pblico que h tempo merece. 


7#5 LIVROS  A SOMBRA DO LIBERTADOR
Uma nova biografia de Simn Bolvar ainda apresenta o lder venezuelano com cores de heri romntico  mas rejeita as imposturas que o chavismo criou sobre ele.
EDUARDO WOLF

     Pouco depois da meia-noite de 16 de julho de 2010, Caracas, a capital da Venezuela, foi palco de um espetculo poltico dos mais singulares na histria da Amrica Latina. Com transmisso ao vivo pela televiso nacional, o ento presidente Hugo Chvez narrava, com rasgos de emoo e delrio, os trabalhos de exumao dos restos mortais do mais ilustre cidado caraquenho, Simn Jos Antnio de la Santssima Trinidad Bolvar y Palcios (1783-1830), lder da independncia da Amrica hispnica e, segundo Chvez e seus seguidores, patriarca do "socialismo do sculo XXI". A macabra pantomima chavista pode ser interpretada como um tresloucado gesto de apropriao poltica do nome e da trajetria do aristocrata nascido no sculo XVIII, educado nos valores do Iluminismo, gradativamente convertido ao republicanismo europeu mais eufrico, e que se transformou, sculo XIX adentro, no militar arrojado e lder carismtico que libertaria a Amrica Latina do domnio colonial espanhol. Para tristeza do prprio Libertador, como Bolvar era chamado, sua luta no fez triunfar no continente a liberdade, a justia e a unio que ele dizia amar. Antes, o legado do homem que derrotou o Exrcito espanhol comandado pelo general Pablo Morillo e, assim, fez sombra s vitrias do general argentino Jos de San Martin  o outro grande lder da independncia  da Amrica hispnica  foi o caudilhismo autoritrio, a fragmentao sectria entre as diversas regies do continente e a trgica disposio dos governantes para o mando brutal e caprichoso  e dos governados para a adulao a tiranetes como Hugo Chvez. O prprio Simn Bolvar anteviu isso. Na biografia Bolvar  O Libertador da Amrica (traduo de Alexandre Morales; Trs Estrelas; 608 pginas; 89,90 reais), a jornalista Marie Arana cita palavras do biografado que expressavam o temor com o destino das terras que ajudara a emancipar: "Este pas cair infalivelmente nas mos de uma multido desenfreada para depois passar a tiraninhos quase imperceptveis de todas as cores e raas". No ltimo ano de sua vida, trado ou abandonado por alguns de seus principais aliados e com a sade debilitada, Bolvar estava, apesar disso, lcido. Seu prognstico foi preciso. 
     Nascida no Peru e radicada nos Estados Unidos, jornalista e ficcionista j premiada,  certo que Marie Arana favorece em seu livro a dimenso romntica do aristocrata que abre mo de tudo por um sonho de liberdade e a natureza heroica do homem capaz de enfrentar dificuldades quase sobre-humanas em dcadas de batalha nos territrios que hoje compem a Colmbia, o Equador, a Bolvia, o Panam, o Peru e a Venezuela. Mas o Simn Bolvar que nos surge nas pginas do livro  radicalmente distinto das verses que dele nos pintam os "bolivarianos". Marie rechaa a viso de Bolvar como um Che Guevara de seu tempo. Pelas lentes da autora, sai ampliada a poro iluminista e liberal de Simn Bolvar, o homem que lia Montesquieu e Voltaire, que admirara Napoleo como uma fora evolutiva a favor do progresso (a ponto de cair na mais profunda frustrao quando de sua coroao como imperador) e que era conviva de gente esclarecida como o naturalista alemo Alexander von Humboldt. 
     A qualidade da narrativa  claramente fruto do lado romancista de Marie: a descrio da entrada de um triunfante Bolvar em Caracas, em 6 de agosto de 1813, sendo recebido "por radiantes moas na flor da adolescncia, vestidas de branco e trazendo coroas de louros e flores", macaqueando um Csar romano perdido no calor dos trpicos, no  dessas que encontramos em historiadores mais sisudos. Do mesmo modo, as informaes sobre os amores de Bolvar, em especial Josefina "Pepita" Machado e Manuela Senz, do um sabor de realismo fantstico  histria  no se imaginaria George Washington atrasando por trs dias, como fez Bolvar, a partida de uma esquadra de navios para a guerra revolucionria de independncia apenas para aguardar a chegada da amante. 
     O problema do livro  o franco entusiasmo da bigrafa por seu biografado, o que lhe tolhe a capacidade crtica em momentos decisivos. Afinal, o modo como Bolvar decretara sua "guerra at a morte" ("Nosso dio ser implacvel", afirmou) e o trgico derramamento de sangue que isso acarretou mereceriam mais que uma observao, feita por Marie, de que "a historiografia no foi benevolente com a deciso de Bolvar". A autora diz que Bolvar ensina os latino-americanos "a aceitar as imperfeies humanas de seus lderes". Lamentavelmente, a herana do Ditador  sim, Bolvar tambm reivindicava esse ttulo   mais grave: a tradio poltica violenta e antidemocrtica que deixou para o continente. 


7#6 VEJA RECOMENDA

DVD 
GMEOS  MRBIDA SEMELHANA (DEAD RINGERS, CANAD/ESTADOS UNIDOS, 1988. VERSTIL)
 O ginecologista Elliot Mantle adverte seu irmo gmeo e colega de consultrio, Beverly, de que este usou, em um exame rotineiro, um retrator cirrgico, causando imensa dor  paciente. Beverly discorda: era o corpo da mulher, e no o instrumento, que estava "errado". Todos os corpos parecem estar errados neste filme perturbador do cineasta canadense David Cronenberg. Os irmos Mantle a certa altura comeam a acreditar que deveriam ser siameses, tal a simbiose em que vivem, dividindo tudo, inclusive mulheres. Claire Niveau (Genevive Bujold), a atriz que ameaa abalar essa unio doentia  o introvertido Beverly se apaixona por ela, para irritao do calculista Elliot , sofre de uma rara deformao no tero, o que a torna estril. Jeremy Irons vive os dois irmos, com bem-compostas diferenas at na intensidade do olhar. Cronenberg, ento j consagrado pelas bizarrias de A Mosca e Scanners, exibiu, neste filme de 1988, esquisitices mais sutis.  estranhamente incmodo ver mdicos, na sala de cirurgia, vestidos de vermelho, e os grotescos instrumentos cirrgicos desenhados por Beverly so de arrepiar.

CINEMA
O JULGAMENTO DE VIVIANE AMSALEM (GETT, ISRAEL/FRANA/ALEMANHA, 2014. J EM CARTAZ NO PAIS)
 O advogado se dirige aos trs rabinos que conduzem o julgamento: sua cliente h trs anos deixou a casa do marido e pede o divrcio. Elisha (Simon Abkarian), o marido, se recusa a conced-lo. Ele apela ento  corte para que intervenha. Os juzes deliberam: s o marido tem autoridade para dissolver o casamento. Viviane deve voltar para Elisha por pelo menos seis meses. A o assunto ser discutido em uma nova audincia. E assim, pelos prximos quatro anos, em uma infinidade de audincias que tm lugar sempre numa mesma sala impessoal, Elisha, o advogado (Menashe Noy), o rabino-chefe (Eli Gornstein) e testemunhas ocasionais se confrontaro e tero de enfrentar a obstinao de Viviane  Ronit Elkabetz, estupenda como atriz e tambm como corroteirista e codiretora ao lado do irmo, Shlomi Elkabetz. Uma espiral que retorna sempre ao ponto de partida, o filme aborda com contundncia irretorquvel o patriarcalismo religioso que invade as relaes civis em Israel. Ombreia no s com outros filmes israelenses de primeira grandeza, a exemplo do Kadosh de Amos Gitai, como tambm, ironicamente, com um marco sobre o tema, o iraniano A Separao.

BLU-RAY
COBAIN: MONTAGE OF HECK (ESTADOS UNIDOS, 2015. UNIVERSAL)
 O Nirvana causou, na gerao dos anos 90, um impacto quase comparvel ao dos Beatles na dcada de 60. Lanado em 1991, Nevermind, o segundo disco do grupo de Seattle, vendeu 30 milhes de cpias no mundo e popularizou o movimento grunge. O sucesso nunca foi bem absorvido pelo lder do Nirvana, Kurt Cobain: em 1994, aos 27 anos, ele se matou com um tiro de espingarda. A vida de Cobain  destrinchada neste excepcional documentrio. Vdeos caseiros e imagens de arquivo registram ensaios do msico e seu convvio com Courtney Love, sua mulher, e Francs, filha do casal. A direo inspirada de Brett Morgen intercala imagens encenadas ou em animao com entrevistas de familiares (faltou o depoimento do baterista do Nirvana, Dave Grohl, hoje lder do Foo Fighters). Aspectos problemticos da intimidade do roqueiro  uma primeira relao sexual que o encheu de repulsa, o convvio complicado com o pai, uma tentativa de suicdio na adolescncia  so examinados. E reforam a grande lenda romntica do rock: o heri maldito e melanclico. 

LIVROS
POLITICAMENTE INCORRETO  O GUIA DOS GUIAS, DE LEANDRO NARLOCH (LEYA; 320 PGINAS; 49,90 REAIS)
 Lanado em 2009, Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil inaugurou uma srie que agora j conta com vrios escritores e livros  e fez de seu autor, o jornalista Leandro Narloch, um best-seller. Seguiram-se guias igualmente incorretos da Amrica Latina (em parceria com Duda Teixeira, editor de VEJA) e da Histria do Mundo. Este Guia dos Guias  uma seleta dos ensaios mais curiosos e provocativos dos trs livros anteriores. Compilando o que h de melhor na boa historiografia, Narloch  titular da coluna O Caador de Mitos, no site de VEJA  dedica-se, sobretudo, a sacudir gastos clichs esquerdistas. Lembra, por exemplo, que Joo Goulart, o presidente deposto pelo golpe de 1964, j favorecia empreiteiras, ou que o chileno Salvador Allende foi um presidente autoritrio e desastroso, o "Chvez dos anos 70". O livro tambm inclui alguns textos novos  com um breve ensaio sobre as incmodas semelhanas entre as reaes dos governos de Fernando Collor e Dilma Rousseff aos movimentos que pedem impeachment.

CADERNO ITALIANO, DE BORIS SCHNAIDERMAN (PERSPECTIVA; 192 PGINAS; 45 REAIS)
 Professor aposentado de russo da USP, Boris Schnaiderman, 98 anos,  um dos mais respeitados tradutores de clssicos dessa lngua, incluindo obras de Dostoievski, Tolsti e Tchekov. Nascido na Ucrnia, em 1917, veio para o Brasil, com a famlia, em 1925. Na II Guerra, o imigrante considerou que deveria servir a seu pas na luta contra o nazifascismo europeu, e foi combater com a Fora Expedicionria Brasileira na Itlia. Sua experincia em um grupo de artilharia  esteve em Monte Castelo, a mais emblemtica batalha travada por brasileiros na guerra  foi a base de uma obra de fico, Guerra em Surdina, lanada em 1964. Caderno Italiano  seu testemunho propriamente autobiogrfico. Trata-se de um relato de bvia importncia histrica, mas que tambm tem uma sensvel qualidade literria  como se v, por exemplo, no recorte de cronista que o autor faz de uma cena de rua em Roma, em 1944: em meio  generalizada penria que a guerra provocou na cidade, um cobrador incentivava passageiros a entrar no nibus com gritos de "coragem, coragem". 


7#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
2- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE
3- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
4- Nmero Zero. Umberto Eco. RECORD 
5- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA 
6- Minha Vida Fora de Srie  3 Temporada. Paula Pimenta. GUTENBERG 
7- A Rainha Vermelha. Victoria Aveyard. SEGUINTE
8- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE
9- Se Eu Ficar. Gayle Forman. NOVO CONCEITO 
10- A Garota no Trem. Paula Hawkins. RECORD 

NO FICO
1- Abilio. Christine Correa. PRIMEIRA PESSOA
2- S por Hoje e para Sempre. Renato Russo. COMPANHIA DAS LETRAS 
3- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
4- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD
5- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
6- Histria do Futuro. Miriam Leito. INTRNSECA
7- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS 
8- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA
9- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
10- Eu Sobrevivi ao Holocausto. Nanette Blitz Konig. UNIVERSO DOS LIVROS

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- No Se Iluda, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
2- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM 
3- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
4- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE 
5- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
6- Invista em Futebol. Juliano Fontes. GENTE
7- Ele Est no Meio de Ns. Padre Marcos Rogrio. PETRA
8- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva. SEXTANTE 
9- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA 
10- Quem Me Roubou de Mim? Padre Fbio de Melo. PLANETA 


7#8 J.R. GUZZO  RESTOS A PAGAR
     O segundo governo da presidente Dilma Rousseff deu para imaginar o fim do mundo a cada vez que a populao vai para a rua; deve ter suas razes. Da, quando as pessoas voltam para casa e se descobre que o mundo, obviamente, continua de p, as altas autoridades da Repblica passam a contar vantagem. Insultam os manifestantes. Dizem que esto fazendo um governo praticamente perfeito  se uma ou outra coisa no vai bem, a culpa  da economia dos Estados Unidos, ou da China, ou de quem mais possa lhes dar na telha. Agem como se todos os brasileiros que no foram s manifestaes estivessem a favor do governo. Acreditam que saram da bacia das almas porque fecharam negcio com a nova equipe de resgate chefiada pelo senador Renan Calheiros e seus associados de sempre  Fernando Collor, Jos Sarney, Paulo Maluf e outros gigantes que hoje so os anjos da guarda da esquerda nacional. A presidente, mais uma vez, diz: "Daqui ningum me tira". 
     Dilma Rousseff no caiu entre o domingo e a segunda-feira da semana passada, depois que centenas de milhares de pessoas, pela terceira vez em cinco meses, mostraram em praa pblica o quanto desprezam seu governo, seu partido e seus aliados. E  como poderia ter cado? A populao, no dia seguinte, tem de trabalhar, cuidar da casa, tocar a vida; no pode continuar na rua. Os que vo aos protestos no so militantes pagos pelos "movimentos sociais" que vivem de dinheiro do governo. No so golpistas: no querem dar golpe nenhum, se quisessem no saberiam como, nem tm tempo para isso. Mas a presidente da Repblica, o Instituto Lula e os comits centrais do PT fazem questo fechada de no pensar na nica realidade que importa no momento  com essas multides ocupando livremente as ruas  impossvel acreditar que o governo esteja ganhando alguma coisa. No d para insistir que os seus donos esto certos  e que os 70% dos brasileiros que os condenam nas pesquisas de opinio esto errados.  Mais que tudo, nenhum dos problemas urgentes que o Brasil tem hoje andou um milmetro no rumo de uma soluo depois que as passeatas acabaram. 
     O governo Dilma no  capaz de perceber, quando acha que chegou ao fim de uma dificuldade, que est apenas no comeo de outra. Ficou combinado, no grosso dos comentrios feitos at agora, que a presidente "ganhou tempo".  mesmo? E quanto foi esse tempo ganho? O suficiente para atravessar os prximos trs anos e quatro meses que tem pela frente? Fala srio. Ser preciso, em primeiro lugar, que algum comece a governar. Tanto quanto se pode ver, o refro "fora Dilma" ficou superado  ela j est fora h muito tempo, desde que desistiu de ser presidente da Repblica e optou por chefiar um governo paraplgico. Hoje, na viso de Lula, do PT e da "base", s serve para levar a culpa por tudo; para o restante do pas, no tem utilidade conhecida. Mais que tudo, a travessia vai exigir dos donos do governo o reconhecimento de uma realidade bem simples: seu verdadeiro problema no est nas manifestaes de rua, no "golpe da direita", na crise "do capitalismo", no deputado Eduardo Cunha e outros favoritos do seu atual elenco de demnios  est em Curitiba, no juiz Srgio Moro e na 13 Vara Criminal Federal.  algo que, at agora, tm sido mentalmente incapazes de fazer. 
     O governo dos ltimos treze anos resume-se hoje a uma soma de restos a pagar. No quer, e talvez j no possa, zerar essa conta. 
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     Enquanto isso, na vida como ela , tudo continua a provar por A + B que o Brasil, tal como  governado hoje, no corre o menor risco de dar certo. Descobriu-se no noticirio que na sua recente visita de um dia  Califrnia, durante a viagem que fazia aos Estados Unidos, a presidente Dilma Rousseff conseguiu gastar 100.000 dlares s com o aluguel de carros. Foram contratados 25 motoristas para levar a comitiva brasileira de l para c, a bordo de automveis, vans, nibus e at um caminho. (Eis a, entre outras, a pergunta que no quer calar: por que esse caminho?) Embora a visita de Dilma tenha durado apenas um dia, o contribuinte brasileiro pagou a circulao da frota inteira durante os quinze dias anteriores; segundo os gerentes do Palcio do Planalto, foi preciso esse tempo todo para preparar as coisas bem direitinho. Para completar a comdia, o governo s pagou  locadora dos veculos depois de se ver ameaado de um processo de cobrana na Justia americana. Como pode funcionar um pas que gasta 100.000 dlares com aluguel de carros num passeio, incluindo um caminho para levar a tralha de Sua Excelncia? No pode. 

